O veneno que desgastou o franquismo

No final da década de sessenta, Carrero Blanco – o sucessor oficioso de Franco que, em 1973, seria assassinado pela ETA – definia os estudantes universitários espanhóis como seres «envenenados de corpo e alma». Em 2004, a expressão viria a ser utilizada por José Álvarez Cobelas, no título da sua importante obra sobre a oposição universitária madrilena ao franquismo e é agora evocada por Elena Hernández Sandoica, Miguel Ángel Ruiz Carnicer e Marc Baldó Lacomba – autores de Estudiantes Contra Franco (1939-1975). Oposición Política y Movilización Juvenil – para dar conta do irreversível processo de desafectação estudantil nos anos finais do franquismo.

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O veneno a que se refere Carrero Blanco – a contestação das pautas ideológicas, sociais e culturais da ditadura – havia permanecido praticamente inoperante até finais da década de cinquenta. A intensa depuração que se seguiu à guerra civil, com a execução ou o exílio – físico e psicológico – de muitos professores e alunos republicanos, ajudara a sedimentar a ordem saída do alzamiento. Se o fim da 2.ª guerra mundial abriu espaço, por momentos, a uma crise de legitimidade internacional, no início da década de cinquenta a vitória consolidada sobre os últimos fogachos da resistência republicana, as relações amigáveis com a Santa Sé e o novo jogo de interesses provenientes da «guerra fria» – que levou a que os Estados Unidos passassem a ver Espanha como um tampão seguro ao avanço do comunismo – proporcionou um reforço da aceitação internacional do regime.

Uma dissidência crescente
É também nesta altura que se começa a afirmar uma nova geração de estudantes, jovens nascidos durante a guerra civil ou que eram demasiado pequenos para terem participado plenamente do «horror da luta» e do «terror imediato» (p.99) que lhe sucedeu. Provinham, em regra, de famílias da classe média ou alta, que mantinham uma relação entusiasta ou apaziguada com o campo nacionalista, mas cujos filhos se caracterizavam agora por refutar as clivagens oriundas da guerra e o nacionalismo católico do regime. Em meados da década de cinquenta, três mil estudantes madrilenos assinavam um manifesto que começava com a frase «Nós, filhos dos vencedores e dos vencidos…», o que em si só soava como uma afronta. Em Dezembro de 1955, o reitor da Universidade Complutense, Pedro Laín Entralgo, redige um informe ao governo no qual, avaliando-se a «situação espiritual» da juventude, se declara que ela está marcada por uma «viva ansiedade quanto ao futuro de Espanha e pela crítica premente à falta de brio do nosso Estado para resolver os problemas da vida espanhola» (p.107).

O processo de afastamento do regime era ainda perceptível no interior do SEU (Sindicato Español Universitário), criado em 1934 a partir das milícias falangistas e que a partir de 1943 se estabeleceu como sindicato único. Por esta altura, crescem as vozes críticas aos métodos de eleição dos delegados, cuja ratificação estava dependente da aceitação dos chefes distritais. Ao mesmo tempo, reorganizam-se pequenas minorias politicamente muito activas, como o PCE (Partido Comunista de España), liderado por Federico Sanchez – pseudónimo de Jorge Semprún – e que tinha como principais militantes Enrique Múgica e Javier Pradera, ambos oriundos de famílias do regime. Em Outubro de 1955 o funeral de Ortega y Gasset foi transformado numa manifestação política. No início de 1956, em Madrid, sucedem-se as críticas à falta de representatividade do SEU, o que provocou inúmeros confrontos entre falangistas e críticos do sindicato único.

Ainda assim, na curva da década de cinquenta para a década de sessenta, apenas uma pequena «minoria politizada» lia livros, ia ao cineclube ou participava em tertúlias, enquanto a maioria dos estudantes «lia a Marca e jogava póquer e dominó», como recorda um estudante valenciano (p.173). Contudo, durante os anos sessenta, as leituras sintonizam-se com uma «tendência laicizadora» (p.157), pouco a pouco tornada dominante. Em finais de sessenta, um inquérito feito aos estudantes de Madrid indicava que estes liam – ou afirmavam ler – Sartre (57%) e Marcuse (55%) bem mais do que Adolfo Munõz Alonso, ideólogo do Movimiento (8%). Num contexto de dilatação do número de estudantes e de professores – nomeadamente dos chamados «professores não numerários», destinados a responder ao aumento da frequência universitária – afirma-se uma cultura de oposição que, sendo um fenómeno colectivo, abarcava uma importante «dimensão de experiência individual» (p.175).

Os «pequenos núcleos de militantes clandestinos que se iam formando nas aulas através de redes de sociabilidade informal» (p.17) haviam crescido e diversificado. Para além do PCE, a esquerda estudantil contava agora com a ASU (Asociación Socialista Universitária), fundada em 1956 e ligada ao socialista Rodolfo Llopis, exilado em Toulouse, e a FLP (Frente de Liberación Popular), criada em Setembro de 1958 por Júlio Céron e que procurava conjugar cristianismo e marxismo com uma atenção especial às lutas de libertação desenvolvidas no então Terceiro Mundo. Das suas fileiras fizeram parte, entre, outros José Maria Maravall, Manuel Castells ou Vicente Verdú, e apesar de ter desaparecido em 1970, dividida e radicalizada, a FLP ocupou um lugar de destaque na politização estudantil durante estes anos, sobretudo pelos seus frequentes apelos à aproximação ao mundo operário. Estas organizações – PCE, ASU e FLP – chegaram a criar a FUDE (Federación Universitária Democrática Española), uma estrutura destinada a coordenar o entrismo no SEU, e estariam presentes na criação dos sindicatos democráticos.

Contestação e repressão
Os SDEU (Sindicato Democrático de Estudiantes de la Universidad) pretendiam ser uma alternativa ao sindicato oficial. O primeiro nasceu em Barcelona, em 1966, após um dramático encontro num mosteiro em Sarriá, que terminou com uma vigília de dois dias feita pelos cerca de quinhentos estudantes e professores que estavam no interior do edifício, fortemente cercado pela polícia. Entre 1966 e 1969, ao mesmo tempo que se formam sindicatos democráticos em quase todas as universidades espanholas, endurece a repressão, modo encontrado pelo regime para contrariar a «espécie de crise endémica da vida ‘normal’ da universidade» (p.231). O momento simbólico deste recrudescimento repressivo foi a detenção e morte de Enrique Ruano, militante da FLP, a 20 de Janeiro de 1969. Segundo a versão oficial da polícia, Ruano terá saltado do sétimo andar da Direcção Geral de Segurança, onde estava a ser interrogado há 48 horas, devido a problemas afectivos e psicológicos. Esta não foi, porém, a convicção dos estudantes, que se manifestaram vigorosamente nos dias seguintes, levando o governo a declarar o estado de excepção por três meses, abrindo caminho a um período de «repressão preventiva, com a ocupação física das faculdades por parte da polícia» (p.264).

É por esta altura que Carrero Blanco fala dos estudantes como estando «envenenados de corpo e alma» e que o diário ABC refere a existência de uma «escória imunda» da qual a universidade se deveria depurar (p.272). O clima de repressão e o impacto de um contexto generalizado de lutas estudantis a nível mundial levou à fragmentação e radicalização dos grupos políticos actuantes no território universitário. A adopção do eurocomunismo por parte do PCE, bem como o progressivo desmantelamento da FLP, levou à multiplicação de pequenos grupos à esquerda, a maioria de formatação maoista ou trotskista, caracterizados por um forte sentimento anti-imperialista e pela defesa da «ditadura do proletariado» e da «revolução». Alguns deles, convencidos de que o franquismo apenas cairia pela força, lançam-se com urgência na luta armada. É o caso da FRAP (Frente Revolucionário Antifascista y Patriótico), dos GRAPO (Grupos de Resistência Antifascista Primero de Octubre) e, de modo diferente, pela sua mescla de marxismo e nacionalismo basco, da ETA (Euzkadi Ta Askatasuna).

Este «marxismo radical tardio» (p.317), plural e heterogéneo, vinha também adicionar às formas tradicionais de contestação – panfletos, manifestações, pichagens – outras, mais sintonizadas com o «espírito do tempo», e que consistiam em ocupações, assembleias ou ataques contra os símbolos do regime. As mobilizações contra a condenação à morte de seis militantes da ETA, em 1970, no chamado Processo de Burgos, veio reforçar o caudal anti-regime e demonstrar a impossibilidade de qualquer compromisso com as forças da ordem, fenómeno que a recusa da tecnocrática Ley General de Educación veio confirmar. Neste período não deixa também de se fazer notar uma aguerrida extrema-direita, muito activa em alguns momentos específicos, e também ela por vezes crítica do regime, ainda que a repressão não se abatesse da mesma forma sob estas franjas ideológicas.

No período imediatamente anterior à morte de Franco, um dos sinais da tímida política reformista do governo de Árias Navarro seria a aprovação de um decreto, em Setembro de 1974, que possibilitava a participação estudantil nos órgãos da universidade. O PCE vira neste acontecimento uma possibilidade de aproveitar as franjas de legalidade concedida, sendo secundado nesta estratégia pelos maoistas da Joven Guarda Roja (JGR). Em Janeiro de 1975, a Junta Democrática de Madrid, liderada pelo PCE, convoca os estudantes a «lutar pelas liberdades democráticas, a amnistia e a devolução ao povo espanhol do pleno exercício da sua soberania» (p.394), enquanto que a extrema-esquerda procurava «subordinar a luta estudantil à acção nos bairros e nas fábricas ou (…) apelando à violência revolucionária» (p.387).

Nas páginas finais desta obra problematiza-se ainda o papel do movimento estudantil na oposição ao franquismo e a afere-se distâncias e aproximações entre esse passado e o activismo estudantil na actualidade. Adoptando a tese de José Maria Maravall, segundo a qual a transição espanhola foi um «processo de reforma negociada, conduzida desde cima e combinada com uma dinâmica de pressão desde baixo» (p.407), acentua-se a importância do protagonismo estudantil nessa mudança. Ele preparou o «substrato discursivo da transição» (p.19), actuando como um laboratório dos valores democráticos, o que compreendeu a aprendizagem da democracia mais como «forma de comportamento social do que como teoria política» (p.27). E isso, na opinião dos autores, transformou o movimento estudantil desses anos numa autêntica «escola cívica» (p.16), reinventada de cada vez que se procurava contrariar as margens estreitas da ditadura.

Miguel Cardina

Elena Hernández Sandoica; Miguel Ángel Ruiz Carnicer; Marc Baldó Lacomba (2007), Estudiantes contra Franco (1939-1975). Oposición política y movibilización juvenil. Madrid: La Esfera de los Libros, 507 pp. [ISBN: 978-84-9734-548-4]

[Fonte: Passado/Presente]

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