30 anos de uma prisão

Texto sobre o jornalista, escritor e cineasta Renato Tapajós, militante preso pelo DOPS em 1977
Agência Carta Maior — 05/09/2007

Eloísa Aragão Maués1

Há 30 anos escritor era preso por publicar o primeiro romance/depoimento sobre a guerrilha no Brasil. Isso depois de ficar preso durante 5 anos condenado por sua militância. No processo, houve pronunciamentos até sobre teoria literária.

Em 27 de julho de 1977, um funcionário da editora Abril, em São Paulo, era preso à saída da empresa, ao término de seu expediente, sem nem mesmo saber a razão. Seu nome: Renato Tapajós, jornalista, escritor e cineasta. O motivo alegado veio a público apenas horas depois, durante o interrogatório no DOPS: o lançamento do romance “Em câmara lenta”, publicado pela editora Alfa-Omega, naquele mesmo ano.

Essa obra de ficção, em que o autor fazia um balanço crítico público sobre a experiência da guerrilha - da qual participara como membro da Ala Vermelha e por isso teve de cumprir pena de prisão de 1969 a 1974 —, bem como uma espécie de denúncia dos desmandos que o regime militar promovia nos anos 1970, em especial em torno do emprego brutal da tortura, tornou-se um caso exemplar da censura aos livros na época.

Em primeiro lugar, porque ainda que se vivesse o período da "abertura" política sob o governo Geisel, Tapajós foi realmente encarcerado em virtude da publicação, tendo permanecido dez dias incomunicável. Outro caso conhecido de censura — entre vários outros — aconteceu em 1976 como livro “Feliz Ano Novo”, de Rubem Fonseca; porém Fonseca não foi preso. Posteriormente, ele moveu um processo judicial contra a União por conta do veto à circulação de seu livro e da apreensão dos exemplares da obra.

Em segundo lugar, porque a proibição de circulação do livro, considerado "instrumento de guerra revolucionária" pelas forças repressivas, foi declarada somente em 13 de agosto, ou seja, após a prisão do autor. Nesse momento Tapajós ainda se encontrava preso e Fernando Mangarielo, editor e proprietário da Alfa-Omega, e Claudete Mangarielo, sua esposa, já tinham respondido a interrogatórios no DOPS.

O intervalo entre a prisão do autor e a proibição do romance promoveu uma grande divulgação e vendagem do livro, logo tendo sido esgotada a primeira edição de 3 mil exemplares.

Se “Em câmara lenta” correu na contramão do trajeto fácil para chegar às livrarias, isso também se refere a toda a história que o precedeu. Renato Tapajós produziu o original na prisão do Carandiru, em 1973. Ele escrevia em folhas de papel de seda, com letras miúdas, todas as partes do texto, depois as embrulhava até o papel ficar minúsculo e o enrolava em celofane de cigarro, fechando com fita durex para ficar impermeável. Quando os pais visitavam Tapajós no cárcere, levavam a pequena cápsula sob a língua e, dessa forma, com o material escondido saíam de lá, sem provocar na vigilância nenhuma suspeita.

Tão logo chegavam em casa, eles abriam a cápsula com o pequeno texto, usando uma lupa para compreender a escritura. O passo seguinte era datilografar a narrativa que, a cada nova visita dos pais ao filho, ia sendo completada — o título original dado ao romance por Tapajós era "Os mortos não são todos iguais". Dessa forma, quando Tapajós foi liberado da prisão, em 1974, encontrou todo seu original datilografado.

Pronto o original, o autor levou quase dois anos buscando editoras que pudessem se interessar pela publicação. Entre as muitas negativas recebidas, destaca-se a da editora Civilização Brasileira que, por meio de uma longa resposta de Ênio Silveira, transmitida por Octavio Ianni, veio com um tom de advertência, infelizmente confirmada quando tempos depois a censura mostrou seus dentes: ainda não era o momento oportuno de publicar um livro com aquela carga vulcânica e simbólica.

O périplo se concluiu quando a editora Alfa-Omega, uma casa que ganhara notoriedade à época por ter lançado “A ilha”, de Fernando Morais, abraçou o projeto. A noite de lançamento de “Em câmara lenta”, em 10 de maio de 1977 no bairro de Pinheiros em São Paulo, reuniu um público considerável, mobilizando, de certa forma, a esquerda.

E hoje, quando 30 anos nos separam desse episódio da censura — a saída da prisão de Renato Tapajós ocorreu em 23 de agosto de 1977 —, é importante relembrar a resistência de muitos intelectuais, artistas ou anônimos, não somente no Brasil mas também de vários outros países, que por intermédio de notas, cartas ou abaixo-assinados repudiaram a arbitrariedade do Estado no caso. Entre eles, duas personagens têm lugar reservado no compromisso em prol da liberdade de expressão: o advogado Aldo Lins e Silva, defensor de Renato Tapajós, Fernando Mangarielo e Claudete Mangarielo; e o professor Antonio Candido de Mello e Souza, que escreveu um parecer crítico sobre o livro de Tapajós, empregado na peça de defesa, frisando não ser ele subversivo nem mesmo induzir a práticas desse gênero, conforme afirmavam os órgãos da repressão judicial.

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