Eremias Delizoicov

Ficha pessoal

Dados Pessoais
Nome: Eremias Delizoicov
Cidade: São Paulo
Estado: SP
País: Brasil
Data de nascimento: 27/3/1951
Atividade: Estudante secundarista
Dados da Militância
Organização: Vanguarda Popular Revolucionária — VPR
Codinome: Raul de Lima Junior
Alexandre Carlos de Lima Junior
Manuel
Corpo identificado como: José Araújo Nóbrega
Morto ou Desaparecido: Morto. 16/10/1969, R. Tocopi, 59, Vila Cosmos
Dados da repressão
Orgão de repressão: Departamento de Operações Internas
Centro de Operações de Defesa Interna/RJ.
DOI-CODI/RJ
Médico legista: Elias Freitas
Hygino de Carvalho Hércules

Biografia

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Militante da VANGUARDA POPULAR REVOLUCIONÁRIA (VPR).

Nasceu aos 27 de março de 1951, em São Paulo, filho de Jorge Delizoicov e Liubov Gradinar.

Estudante secundarista, foi assassinado no dia 16 de outubro de 1969, na rua Tocopi, 59, em Vila Cosmos, Rio de Janeiro, quando reagiu ao cerco montado pelos agentes do DOI-CODI/RJ que tentavam prendê-lo.

Foi identificado e enterrado como José Araújo Nóbrega — o sargento Nóbrega — que até hoje se encontra vivo e, à época dos fatos, era também um perseguido político e militava na VPR.

Os órgãos de repressão aparentemente pareciam confusos e não sabiam qual a verdadeira identidade daquele cadáver. No entanto, era pura encenação para, mais uma vez, cometerem o crime de ocultação de cadáver.

De fato, as impressões digitais de Eremias Delizoicov já estavam confirmadas pelo datiloscopista da Delegacia de Crimes Contra a Pessoa, de São Paulo, no dia 11 de dezembro de 1969, conforme comunicado n. 76/69 da Secretaria de Segurança Pública. Ou seja, ao enterrarem aquele cadáver, sabiam que era de Eremias Delizoicov.

O Relatório do Ministério da Aeronáutica diz que foi "morto em 16/outubro/69, em tiroteio com membros dos Órgãos de Segurança…" e o da Marinha afirma que "…morreu ao resistir ao cerco da Polícia do Exército, em Vila Cosmos/RJ".

Texto de Demétrio Delizoicov Neto, irmão de Eremias:

"Eremias viveu toda a sua infância e boa parte da sua curta adolescência na Moóca. Completou o curso primário, em 1961, no Grupo Escolar Pandiá Calógeras e o ginasial em 1965, no Colégio Estadual M.M.D.C. Neste mesmo colégio iniciou, em 1966, o curso clássico. Em 1967 foi aprovado no exame de seleção da Escola Técnica Federal de São Paulo e cursou, simultaneamente com o clássico, o curso de mecânica.

Sensível e criativo, destinava suas horas de lazer ao esporte e à música. Tocava violão várias horas por dia. Estudou música clássica e, a partir de 66, imbuído de um ‘espírito nacionalista’, começou a expressar seus sentimentos interpretando músicas nacionais, notadamente aquelas enquadradas como ‘Bossa Nova’.

Tentou, com um colega pianista e outro baterista, formar um trio.

Como esportista, em 1962 disputou o torneio paulista de Judô, tendo tirado a primeira colocação na sua categoria. Treinou natação durante 65 e 66 e participou de algumas competições. Em 1967, integrou a equipe de remadores do Corinthians e começou a treinar capoeira.

Organizava seus horários de tal modo a, paralelamente, auxiliar o pai nas atividades do comércio.

Iniciou a leitura das obras de Aluísio de Azevedo, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Ficou particularmente sensibilizado com as poesias de Augusto dos Anjos e passou a questionar a realidade brasileira ao ler ‘Geopolítica da Fome’, de Josué de Castro. Em 1967, no Colégio Estadual M.M.D.C., articulou-se com outros colegas para formar uma chapa que disputaria as eleições para o grêmio estudantil, iniciando sua militância política.

Ficou conhecendo detalhes do acordo MEC-USAID e engajou-se no movimento estudantil contra tal acordo. Passou a interagir com estudantes de outras escolas secundárias e articularam uma chapa para disputar, em 68, as diretorias da União Paulista de Estudantes Secundaristas (UPES) e a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES). Organizou, juntamente com o grupo, o movimento estudantil secundarista nas escolas da zona leste de São Paulo. Eremias, em 1968, passou a liderar um movimento reivindicatório de alunos no Colégio Estadual M.M.D.C., organizando uma greve e comícios. Em virtude disso, foi transferido compulsoriamente, juntamente com alguns colegas, pela Direção do Colégio, contestada por alguns professores. Conseguiu matricular-se no Colégio Estadual Firmino de Proença, terminando o ano. Paralelamente continuou seu curso técnico.

Durante as greves operárias de 68, em Osasco, assistiu a algumas assembléias sindicais, com outros colegas que levavam o apoio dos estudantes aos operários em greve. Engajou-se na campanha para obter fundos de greve.

No início de 1969, entrou para a VPR. Simulou uma discordância com os pais e passou a morar fora de casa, mas visitava-os semanalmente. Confidenciava ao seu único irmão, um ano mais velho, e, então, estudante universitário, com quem mantinha uma estreita ligação e com quem discutia posições políticas.

Em meados de julho de 69, os órgãos de repressão já sabiam da sua militância. Dias antes, Eremias, sabendo do inevitável, reuniu-se com os pais e os pôs a par da sua real situação. Estes esforçaram-se para uma saída segura: enviá-lo ao exterior, mas Eremias optou pelo Brasil e pela clandestinidade. Nunca mais o viram, vivo ou morto.

Seu pai foi detido duas vezes no Q.G. do II Exército para prestar depoimentos. Os prontuários das escolas onde estudara foram vasculhados. Junto com os demais companheiros, sua foto foi exposta em cartazes de pessoas procuradas pelos órgãos de repressão.

No início de 1970, meu pai foi convocado ao DOPS em São Paulo pelo delegado Sérgio Fleury. Enquanto aguardava na ante-sala daquele policial, percebeu que Fleury pressionava a mãe de um cidadão procurado, dizendo que deveria fornecer o paradeiro de seu filho. A certa altura, meu pai, que a tudo ouvia, pois a porta do delegado estava aberta, ouviu-o dizer algo como ‘é uma questão de tempo, ou ele é preso ou morto como o filho daquele senhor’, referindo-se a meu pai, que nesse momento, inteirou-se do falecimento de Eremias. Em seguida, Fleury explicou-lhe o ocorrido na Vila Cosmos, agregando que Nóbrega estava vivo e havia sido preso dias antes, e que, portanto, o morto em outubro de 1969 era Eremias.

Fleury descartou qualquer possibilidade de ajuda em relação ao esclarecimento oficial dos fatos, alegando que se algo pudesse ser feito, seria no Rio de Janeiro, junto ao I Exército. Dias após a ida de meu pai ao DOPS, a imprensa toda noticiaria que Nóbrega havia sido preso e que a pessoa morta no confronto com o Exército, em outubro de 1969, era Eremias.

Enquanto durou a clandestinidade de Eremias, principalmente nos meses de junho a agosto de 1969, a casa de meus pais era constantemente visitada e vigiada por agentes policiais ou militares. Diante do clima de repressão reinante à época, meu pai entendeu não ser possível iniciar o esclarecimento dos fatos.

Em 1975 ou 1976, meus pais foram ao Rio de Janeiro para tentar obter mais informações e localizaram uma vizinha da casa onde fora morto. Segundo a vizinha, a repressão montou um grande aparato, interditando o quarteirão onde se situavam as casas. Pessoas que se diziam militares do Exército pediam que os moradores das vizinhanças permanecessem quietos em suas casas. Contra a casa em que morava Eremias foram disparados inúmeros tiros, inclusive de metralhadora e bombas e, de dentro da casa, partiram também vários tiros. A vizinha acrescentou que parte do efetivo militar utilizou-se de sua casa para invadir a casa onde estava Eremias.

Em 1979, após a edição da Lei de Anistia, meus pais iniciaram a tramitação jurídica para obtenção do atestado de óbito."

Os companheiros da VPR homenagearam Eremias dando seu nome a um dos campos de treinamento no Vale do Ribeira.

Seu corpo entrou no IML/RJ pela Guia n. 471, da 27ª D.P., em 17 de outubro de 1969 como desconhecido.

A necrópsia foi feita pelos Drs. Elias Freitas e Hygino de Carvalho Hércules, que confirmaram sua morte em tiroteio. Esta necrópsia, de 22 páginas, foi enviada ao Tenente-Coronel Ary Pereira de Carvalho, do I Ex–1ª DI, em 4 de novembro de 1969, em resposta ao ofício n. 164 IPM, de 21 de outubro de 1969, com o seguinte teor:

"A fim de instruir autos do IPM de que sou encarregado pelo Exmo. Sr. Gen. Syseno Sarmento, Comandante do I Ex., solicito V. Sa. determinar o atendimento dos seguintes quesitos:
a) termo de necrópsia do cidadão José Araújo de Nóbrega, morto em ação policial-militar, ocorrida cerca das 11:00 horas do dia 16 do corrente, na Rua Tocopi, n° 59, Vila Cosmos/GB,
b) comparecimento ao Hospital da Guarnição da Vila Militar de médicos legistas, a fim de procederem a exames de corpo de delito nos militares: major Enio de Albuquerque Lacerda, Capitão Ailton Guimarães Jorge e Cabo Mário Antônio Povaleri, feridos na mesma ação…" (sic)

O óbito foi, portanto, passado em nome de José Araújo de Nóbrega, tendo o cadáver tido um reconhecimento forçado, feito pelo irmão de José Araújo, Francisco Araújo de Nóbrega, que se encontrava preso à época.

Eremias foi enterrado no Cemitério São Francisco Xavier, em 21 de outubro de 1969, na cova n. 59.262, quadra 45.

Somente em 1993, a família conseguiu o atestado de óbito de Eremias, além da necrópsia e certidão de óbito em nome de Nóbrega e 31 fotos de perícia de local (ICE n. 658/69).

O laudo de perícia de local, também encontrado no ICE/RJ é longo, tendo 10 páginas e descreve o desalinho em que se encontrava a casa onde Eremias foi morto, uma verdadeira operação de guerra.

Documento da Santa Casa de Misericórdia/RJ afirma que, em 25 de maio de 1975, os restos mortais de Eremias foram incinerados como era de praxe.

No Arquivo do DOPS/RJ, consta documento do CENIMAR, de n. 0189, de 23 de julho de 1970, que traz uma relação de militantes do COLINA, VAR-PALMARES e VPR e sua situação em 15 de junho de 1970, onde há os nomes de José Araújo Nóbrega, como banido, e Eremias Delizoicov, como morto.

Documentos

Ofício
Documento da Seção de Informações da Coordenação de Informações e Operações da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, de 11/12/69. Identificação do corpo de Eremias, que havia sido identificado como sendo do Sargento Nóbrega.

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Relatório
Documento do Serviço de Informações do DOPS, de 17/12/69. Informa que Eremias invadiu as instalações transmissoras da Rádio Nacional de São Paulo e que era membro da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). O documento apresenta os códigos de onde as informações foram retiradas.

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Relatório
Documento do DOPS, de 17/12/69. Informa que o corpo identificado em princípio como sendo do sargento Nóbrega, foi identificado por dactilocopista da polícia como de Eremias.

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Artigo de jornal
Transcrição do artigo intitulado: As torturas são aplicadas no Brasil sob a direção do Exército nos quartéis e nas dependências de todas as organizações policiais. Prensa Latina, Santiago do Chile, 21 nov. (sem identificação do ano). Informa que a Frente Brasileira de Informações, criada para romper a censura imposta pelo regime militar do Brasil, com sede em Paris, encaminhou a este jornal comunicado sobre os métodos selvagens aplicados aos presos políticos, sobre a morte de mais de 40 trabalhadores, estudantes e camponeses. Dentre as mortes, cita o conhecido líder guerrilheiro, Carlos Marighella, chefe da Ação Libertadora Nacional (ALN) e iniciador da luta armada no país. Outras mortes causadas pelos militares citadas no documento são: o ex-sargento João Lucas Alves, Severino Viana Colon, José Araújo Nóbrega (que era de fato, Eremias Delizoicov, mas foi identificado pela repressão como sendo deste outro militante), Hamilton Cunha e Fernando Borges de Paula Ferreira. O documento pertence ao arquivo do DOPS.

Artigo de revista
Morte só anunciada. Isto É Senhor, São Paulo, 7 maio 1980, p. 40-45. Discute se a polícia sabia, ou não, que estava enterrando Eremias Delizoicov com o nome de José Araújo da Nóbrega.

Depoimento
Breve biografia, escrita por Demétrio Delizoicov Neto, irmão da Eremias, de 05/87.

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Termo de declarações
Documento da Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, de 18/10/90. Informações prestadas por Demétrio Delizoicov Neto, irmão de Eremias. Traz biografia de Eremias, descrição das circunstâncias em que se deram sua morte, cita as prisões que o pai sofreu para dizer o paradeiro de seu irmão e a falta de esclarecimento, por parte das autoridades, sobre a morte do mesmo.

Certidão de óbito
Documento emitido pelo Cartório do Registro Civil de São Cristóvão, em Rio de Janeiro, RJ, de 26/04/93.

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Relatório
Lista do DOPS contendo 70 itens com nomes de pessoas (muitos se repetem), seguidos de codinomes e condição (preso, liberado, banido ou morto). Dez desses nomes podem ser identificados dentre os mortos e desaparecidos políticos pela ditadura militar: Helenira Rezende de Souza Nazareth, Yoshitane Fujimori, Carlos Lamarca, Eremias Delizoicov, Eduardo Collen Leite, Joaquim Câmara Ferreira, Arno Preis, Maria Augusta Thomaz, Márcio Beck Machado, Aylton Adalberto Mortati.

Relatório
Página 2 de documento com denúncia de organizações de esquerda encontrado no arquivo do DOPS/SP. Possui lista dos brasileiros assassinados pela ditadura militar, cita três brasileiros inválidos e artigo do Estado de São Paulo de 13/05/70, questionando sobre pena de morte no Brasil em virtude de comissão especial de justiça a ser designada para julgar quatro acusados de terrorismo em Olinda, PE, que poderá condená-los à pena de morte. Na lista dos brasileiros assassinados constam: Carlos Marighella, Edson Luiz, José Guimarães, João Roberto, Chael, Padre Henrique (Antônio Henrique), Bernardino Saraiva, Carlos Roberto Zanirato, Carlos Schirmer, José de Souza, João Lucas Alves, Manuel Alves de Oliveira, Pedro Inácio de Araújo, Hamilton Cunha, Severino Melo, Severino Viana Colon, Reinaldo Pimenta, Fernando Ruivo (Fernando Borges de Paula Ferreira), Virgílio Gomes, Mário Alves, além de José Araújo Nóbrega.

Relatório
Parte de documento, encontrado no arquivo do DOPS, de organização de esquerda contendo denúncias de mortes, violências e ilegalidades cometidas pela ditadura militar. Comenta que, para a ditadura defender-se, viola as leis que ela própria elaborou, entregando o comando da repressão a órgãos clandestinos como o DOI-CODI e a OBAN e cita nomes de pessoas mortas ou desaparecidas por estes órgãos, como: Marighella, Edson Luís, José Guimarães, João Roberto, Padre Henrique (Antônio Henrique Pereira Neto), Bernardino Saraiva, João Domingues da Silva, Carlos Schirmer, Marco Antônio Braz Carvalho, Pedro Inácio de Araújo, Hamilton Cunha, Eremias Delizoicov (considerado aqui como ex-militar morto no Rio), Carlos Roberto Zanirato, Antônio Raymundo Lucena, José Wilson Lessa Sabag, José Roberto Spiegner, Dorival Ferreira, José Idésio Brianezi e Juarez P. de Brito.

Parte de livro
Teles, Janaína (org.). Mortos e desaparecidos políticos: reparação ou impunidade? São Paulo: Humanitas - FFLCH/USP, 2000. p.172-176. Lista de nomes dos presos políticos cujas famílias receberam indenização do governo por este ter assumido a responsabilidade pela morte ou desaparecimento dos mesmos.

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