Para ser passado a limpo

Postado no Blog "Levando Lero", 27 de maio de 2007

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Para quem não conhece, essa graciosa e simpática mocinha que está na foto chama-se Helenira Rezende de Souza Nazareth, ou melhor, chamava-se, porque Helenira não mais existe. Para as fontes oficiais do governo brasileiro Helenira é classificada como desaparecida, mas aqueles que viveram naqueles anos em que o terror imperou no Brasil, sabem que Helenira foi morta, pelas forças da repressão da ditadura militar. E que essa morte ocorreu em 29 de setembro de 1972, há trinta e quatro anos atrás.

Preta para alguns, Nira para outros, para mim era Helenira. Pois foi com esse nome e com essa carinha que eu a conheci numa manhã de março de 1962, quando ingressei naquela classe do então “Instituto de Educação de Assis” para onde fora, cursar o segundo ano do Curso Clássico e fazer o Tiro de Guerra. Era alta, magra, falante e cheia de vida. Dela tenho uma recordação bastante curiosa. Certa manhã, voltava eu do intervalo que sempre havia entre uma aula e outra. Já havia entrado na classe, quando Helenira e mais um grupinho de quatro ou cinco meninas também entrou, falando e rindo como sempre. Nisso, alguma das meninas relatou algo em voz baixa e então a voz de Helenira, quebrando aquele momento confidencial disse, em alto e bom som: “Quem? As Três Patetas?”. O grupo, então, explodiu numa gargalhada, que teve que ser controlada com mãos de ferro, já que a professora ingressava na classe.

Apesar de estudarmos na mesma classe, nunca cheguei a conversar com ela. Naquela época, eu era um garoto tímido, tinha medo das pessoas e aquela vivacidade de Helenira me espantava. Além disso, eu morava fora da cidade, na casa de uma família, amiga de meu pai e, portanto, minhas idas à Assis se restringiam aos horários das aulas e ao horário do Tiro de Guerra. No final daquele ano, após o término dos exames, eu voltei para minha cidade, Osvaldo Cruz e, por uma dessas estranhas coincidências da vida, reencontrei Helenira em 1967, numa daquelas assembléias que aconteciam, no saudoso CRUSP (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo), durante o auge do movimento estudandil. Não me lembro de suas palavras, mas fiquei impressionado com seu tom de voz, decidido, ardente, apaixonado e que em nada destoava daquela figurinha marcante e sapeca que conhecera cinco anos antes. Infelizmente, também daquela vez não falei com ela. Éramos alunos da mesma faculdade, apesar de freqüentar cursos diferentes, eu a conhecera em Assis, já não tinha tanto medo das pessoas, nem era tão tímido, tudo isso era um bom pretexto para me aproximar e dizer: “Oi, lembra de mim?”. Contudo, não o fiz — e nem sei direito porquê. Pelo resto daquele ano e no ano seguinte, vi Helenira falando numa ou noutra assembléia. Contudo, depois do fatídico 13 de dezembro de 1968, nunca mais soube dela.

Outra mocinha, da qual não tenho foto, mas que era tão graciosa e simpática quanto Helenira, era Lígia Maria Salgado Nóbrega. Para mim, Lígia. Quanto a essa, as fontes oficiais do governo brasileiro classificam como morta. Sim, isso mesmo! E foi morta, seis meses antes de Helenira, em 29 de março de 1972 numa casa de um bairro do Rio de Janeiro, chamado Quintino. Acho que nem precisa esclarecer que foi morta também pelas forças da repressão da ditadura militar. Ligia, não tinha apelidos, que eu saiba. Era Lígia para mim e para seus colegas de curso, lá no Centro Regional de Pesquisas Educacionais, onde funcionava o curso de Pedagogia, no qual ingressei em 1965 e ela , em 1967. Devo tê-la visto pela primeira vez, em alguma assembléia no CRUSP ou no Centro Acadêmico do curso, onde íamos discutir os acontecimentos da política nacional e estudantil daquela época.

Ao contrário de Helenira, Lígia era quieta, sem ser tímida. Lembro-me bem de seu rosto miúdo, olhos pequenos, talvez pelas lentes dos óculos que usava, pois tinha miopia. Cabelos castanhos, curtos, repartidos ao meio. Tinha um quê de meiguice e candura, que contrastava com o tom seguro e decidido de sua voz. Não me recordo se deixei de vê-la também, depois de 13 de dezembro ou se foi já em 1969. No entanto, com certeza, a partir de 1970 não mais a vi. De Helenira, fui saber muitos anos depois, quando folheando um livro sobre mortos e desaparecidos políticos numa livraria, deparei com sua foto. Foi então que fiquei sabendo que se engajara na Guerrilha do Araguaia e que fora barbaramente assassinada. Custei um pouco a reconhecê-la, a reprodução da foto não estava muito nítida. No entanto, assim que tive a certeza de que ela era, imediatamente surgiu em minha memória a mocinha sapeca e espoleta, entrando na sala de aula, depois do intervalo e falando em alto e bom som: “Quem? As Três Patetas?” Ainda tenho na mente sua carinha risonha, simpática, ainda tenho na mente o eco daquelas gargalhadas. E ainda tenho na mente a curiosidade de saber quem eram, afinal, essas Três Patetas.

Bem recentemente, é que soube das circunstâncias de sua morte. Após ser alcançada pelas forças da repressão foi baleada nas pernas, torturada e morta, a golpes de baioneta. Prestem atenção — foi baleada, torturada só depois é que foi morta. E até onde sei, morrer por golpes de baioneta é o mesmo que ser apunhalado, esfaqueado. Como vocês podem perceber, os algozes de Helenira nada ficam a dever em crueldade e monstruosidade, a seus colegas uruguaios, argentinos, chilenos e nazistas! Sobre Lígia, soube, ainda no mesmo ano, que morrera após os agentes da repressão terem invadido a casa onde vivia, junto com alguns companheiros de militância política. Lígia fazia parte da VAR-Palmares, um dos vários grupos que compunham as forças da guerrilha no Brasil. Foi também torturada e morta com tiros que atingiram os braços e a cabeça. Estava grávida de dois meses!

Mais de três décadas se passaram e não consigo até hoje, conciliar as memórias que delas tenho, com a vida que escolheram. Não consigo enxergá-las de arma em punho fosse no campo, fosse na cidade. Não sei…contudo, é possível que para algumas pessoas o sentimento de justiça, de liberdade e fraternidade seja algo tão forte, tão grande e imperativo a ponto de fazê-las dar um corte abrupto na existência e rumar para destinos completamente desconhecidos e inesperados, entregando o seu bem mais valioso — a própria vida.!

Fico aqui imaginando que estariam fazendo, caso estivessem vivas. Não sei bem , porém de uma coisa tenho certeza — estariam bem indignadas com o comportamento e ações de algumas pessoas, suas contemporâneas e talvez, até amigas de luta e de cruz. Pessoas que lá atrás foram animadas pelos mesmos ideais e que, no entanto, delas diferem por não ter a mesma força de caráter, o mesmo vigor de valores e princípios.

Helenira e Lígia — estejam vocês onde estiverem — faço desse escrito a flor que não depositei sobre suas sepulturas, a lágrima que não derramei — minha modesta homenagem. Tenham a certeza de que seu exemplo não foi em vão.

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