Helenira Rezende

vermelho.org, 13 de maio de 2007 — 18h01
(Entrevista com Bruno Ribeiro, autor do livro Helenira Resende e a guerrilha do Araguaia)

A editora Expressão Popular lançou novos títulos da sua coleção Viva o povo brasileiro. Entre as obras recém-lançadas encontra a biografia da guerrilheira comunista Helenira Resende. Ela era vice-presidente da UNE, presa em Ibiúna, enfrentou cara a cara o temido delegado Fleury. Após o AI-5 se deslocou para a região do Araguaia. Foi assassinada por tropas do Exército em setembro de 1972 e seu nome batizou um dos destacamentos da guerrilha. O autor da biografia é o jovem jornalista Bruno Ribeiro, ex-dirigente da UJS, que concedeu entrevista ao historiador Augusto Buonicore para o Vermelho.

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Militância na UJS levou Bruno ao livro

O objetivo do projeto da editora é divulgar a vida e o pensamento daqueles homens e mulheres que lutaram por um Brasil mais justo e igualitário para o seu povo. Formato de livro de bolso, de fácil leitura e com preços bastante populares a coleção é destinada aos estudantes e trabalhadores.

Bruno disse que desde cedo se apaixonou pela saga dos guerrilheiros do Araguaia e, especialmente, das guerrilheiras. Bruno revela que pouco tempo antes da morte de Helenira, João Amazonas perguntou a ela o que queria ser depois que fosse derrubada a ditadura e conquistado um governo popular, ela respondeu simplesmente: ''eu quero ser crítica de arte''.

Leia abaixo a entrevista.

Bruno o que levou você a se interessar pela Guerrilha do Araguaia e pela vida de Helenira Resende?
Meu primeiro contato com o tema se deu quando ingressei no PCdoB, isso no início da década de 90. A Guerrilha era um dos tópicos que mais discutíamos durante a formação de militância. Tornei-me um apaixonado pela saga dos guerrilheiros do Araguaia e desde então me dedico a pesquisar e reunir todo o tipo de informação sobre o episódio. A figura de Helenira me interessa particularmente por alguma razão que não sei identificar. Tenho por ela um carinho especial, talvez por sua condição de mulher interiorana, nascida e criada em cidade pequena, que superou dificuldades financeiras para estudar e participar ativamente da militância política. Ela tinha o sonho de ser crítica de arte e morreu na luta, defendendo os companheiros. Sua história me emociona muito.

Foi difícil conseguir as informações necessárias para compor o seu livro? Onde você encontrou as fontes para escrevê-lo?
Infelizmente ainda se sabe muito pouco sobre a vida dos guerrilheiros que tombaram no Araguaia. A carência de informações é grande porque a maioria dos militantes estava na clandestinidade e não podia deixar rastros. Além disso, os militares trataram de ocultar ou se desfazer de tudo o que pudesse ajudar na reconstrução de nossa história. Meu livro foi escrito a partir de informações contidas no relatório de guerra escrito por Ângelo Arroyo e de relatos de moradores de Marabá, que tiveram algum tipo de contato com a Guerrilha. As fotos foram cedidas por Helenalda Resende, irmã de Helenira.

Helenira parece que tinha uma vida social bastante ativa antes de aderir à guerrilha. Fale um pouco sobre ela.
Helenira era uma menina muito culta e solidária. Ela vinha de uma família de classe média baixa e seu maior exemplo era o pai, um médico negro, espírita e comunista que sofria todo o tipo de preconceito na cidade de Assis (SP). Helenira gostava de jogar basquete e montar peças de teatro com seus alunos. Antes de se alistar nas fileiras revolucionárias do PCdoB, ela chegou a ser vice-presidente da UNE. Helenira era envolvida com muitas atividades e quem a conheceu diz que ela era muito comunicativa e bem humorada.

O que levou Helenira e aqueles jovens comunistas a fazer uma opção radical pela luta armada nas selvas do distante Araguaia?
O contexto histórico era favorável ao surgimento de uma guerrilha rural no Brasil. E isso ficou mais perto de acontecer quando os militantes comunistas passaram a ser perseguidos, torturados e mortos pela ditadura. Era quase impossível exercer qualquer tipo de militância nos centros urbanos. Helenira era muito visada pelo regime por conta do cargo que exercia no movimento estudantil. Além disso, havia sido jurada de morte pelo delegado Fleury, que a torturou após a prisão no Congresso de Ibiúna, em 1968. Para ela não havia alternativa senão radicalizar a luta e se tornar guerrilheira. Mas, acima de tudo, o que levou Helenira a se aventurar na selva foi o amor ao Brasil e à liberdade.

Como era a vida de Helenira na região e como ela foi assassinada?
Helenira morou com alguns companheiros numa casinha humilde, adquirida pelo PCdoB, na cidade de Marabá, Estado do Pará. Ela ajudava os moradores locais no serviço de roça e também alfabetizava adultos e crianças. Os treinamentos militares eram feitos no interior da mata, onde ela participava de aulas de tiro e sobrevivência. Helenira foi assassinada quando vigiava um trecho de estrada, para garantir a passagem em segurança de um destacamento guerrilheiro. Ela foi surpreendida por um grupo de soldados, mas não se entregou. Resistiu até a última bala e depois foi torturada e morta no local. Seu corpo nunca foi encontrado.

No final dos anos 1970, havia uma opinião generalizada de que a Guerrilha do Araguaia foi um movimento foquista, isolado das massas camponesas. Pelo que você pode apreender de suas pesquisas, isso corresponde à verdade?
Não é verdade. A Guerrilha não acreditava ser possível derrubar a ditadura sem o apoio das massas. Os guerrilheiros viviam em meio ao povo e há relatos de que alguns camponeses chegaram a pegar em armas para lutar ao lado dos comunistas. Os moradores foram fundamentais para a sobrevivência da guerrilha, pois forneciam comida e roupas aos guerrilheiros. O movimento só não recebeu uma adesão maior das massas porque foi descoberto pelos militares quando estava no início dos trabalhos de conscientização. Se a guerra tivesse sido deflagrada cinco ou sete anos mais tarde, provavelmente teria contado com a participação de muitos camponeses.

Mais recentemente surgiram obras buscando equiparar os guerrilheiros e seus algozes das Forças Armadas, afirmando que esta foi uma guerra suja dos dois lados. É possível esta comparação?
Esta comparação é absurda e nem deve ser levada em consideração. Quem pensa dessa forma está agindo de má fé, posto que a luta armada nasceu como resposta à violência militar e não o contrário. A Guerrilha tinha suas leis internas e uma delas era o respeito à vida do prisioneiro de guerra. Não consta que guerrilheiros tenham cometido torturas contra militares. Nem há notícias de que militares tenham sido decapitados, como o foram os guerrilheiros. As Forças Armadas cometeram atos bárbaros que podem ser caracterizados como crimes de guerra, condenados internacionalmente pela Convenção de Genebra. A luta dos guerrilheiros era justa porque havia uma ditadura sangrenta a ser derrubada. Era a luta do povo contra a tirania. Não há outra leitura a ser feita.

Livro: Helenira Resende e a guerrilha do Araguaia
Autor: Bruno Ribeiro
Editora: Expressão Popular
Número de páginas: 96
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