Maria Rosa Leite Monteiro -- Lembranças de Honestino

UnB Agência
Texto de Kelly Couto

Líder estudantil desde os tempos de colégio, Honestino Monteiro Guimarães sonhava em ser presidente da República. Em brincadeiras de rua, chegou a nomear os dois irmãos ministros da Aeronáutica e da Marinha. Gostava de bolar estratégias, coordenar reuniões e promover mini-comícios. O tempo transformou-o em um ativista.

O sonho de mudar o mundo coincidiu com a vinda para Brasília — em 1960, Honestino e sua família deixaram a pequena Itaberaí (GO) e vieram para o Distrito Federal. Em meados daquela década, Honestino projetou-se como um dos personagens políticos mais importantes da capital. Alcançou a presidência da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (FEUB) e, em seguida, comandou a União Nacional dos Estudantes (UNE).

Inteligente e habilidoso na arte de convencer, especializou-se em incomodar o regime militar. “Eles tinham medo da força do meu filho”, revela a mãe, Maria Rosa Leite Monteiro, 76 anos. O engajamento, os protestos públicos e as opiniões confrontavam com o projeto de país imposto à força pelo regime. Perseguido, foi torturado, preso várias vezes e classificado pelo governo da época como “comunista e subversivo”. “Eles não conseguiram intitulá-lo como terrorista. A luta era ideológica. Honestino sempre buscou a justiça”, defende o irmão mais novo, Norton Monteiro Guimarães, 54 anos, que mora em Águas Claras, bairro de Brasília.

Mesmo com as mortes do pai Benedito (no dia 17 de dezembro de 1968 num acidente de carro. Nessa época, Honestino já estava foragido desde a instauração do Ato Institucional nº 5, decretado quatro dias antes) e da irmã Mary Rose Leite Monteiro (morta, aos 28 anos, devido a complicações de diabetes), a família continuou unida. O outro irmão de Honestino, Luís Carlos Monteiro Guimarães, 55 anos, reside também em Brasília.

No dia 10 de outubro de 1973, Honestino Guimarães — à época, com 26 anos — foi preso pela última vez. Vivendo na clandestinidade há cinco anos, acabou capturado no Rio de Janeiro pelas forças oficiais. Daquele ano em diante nunca mais foi visto. Hoje, seu nome faz parte da lista dos desaparecidos políticos do Brasil.

A UnB Agência preparou uma série especial para lembrar os 31 anos do desaparecimento do líder estudantil. A série é composta por um perfil, uma linha do tempo e duas entrevistas exclusivas, que totalizam quase cinco horas gravadas. A mãe e um irmão de Honestino revelaram, entre outros temas, detalhes sobre a personalidade, vida política e pessoal e os tempos em que esteve foragido. Confira a primeira parte da série com um ponto a ponto em que dona Rosa — como prefere ser chamada — fala sobre o “Honestino filho”, antes de ele ser conhecido como líder estudantil.

Infância

“Honestino era político desde quando nasceu. Eu sempre o achei muito inteligente, vivo. Vivia falando de política. E havia campanhas, como agora, e ele ia atrás e queria saber quem seria presidente, governador. Ele sabia quem era quem. Com três, quatro anos, dizia que seria presidente da República”.

Primeiro da classe

“Ele só tirava 10. Seu maior hobby era ler. Ele recortava jornais e fazia coleção. Teve uma época que Honestino estava na prisão e o único livro que entrou foi um dicionário. Ele decorou tudo. E quando ele fez o vestibular da UnB, para mim, foi uma das grandes emoções. Fui na UnB ver a lista, que naquela época era por pontuação e não por ordem alfabética. Meu dedo começou a percorrer o papel, de baixo para cima, mas o nome dele não aparecia. Quando cheguei em cima o nome de Honestino estava no topo. Que orgulho! Foi muita emoção. Eu disse a ele que não precisava exagerar. Não imaginava que o nome dele pudesse estar em primeiro lugar”.

Amizades

“Ele era alegre, muito jovial, gostava de namorar. Lá em casa era cheio de moços e moças. Havia uma sala que era de estudos. Nós morávamos na Asa Norte e os amigos da faculdade viviam lá. A luta dele não era armada e sim ideológica”.

Militância

“Ele ia para as passeatas contra o governo, contra tudo aquilo que estava acontecendo, todas as atrocidades. Eu estava sempre junto. No meio da passeata os jovens armavam palanques de improviso. E trocavam a roupa dele. Honestino sabia que, assim que descesse, seria preso. Então, armavam um esquema de segurança. Ele levava gente demais”.

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Desaparecimento

“Eu procurei por ele até o fim. Quando nos falamos no Jardim Botânico, no Rio, combinamos que se ele fosse pego me procuraria. Alguém me ligaria ou daria um jeito. Foi quando me ligaram do Rio e depois me mandaram um bilhete dizendo: 'Seu filho foi internado'. Essa era a nossa senha. Quando disseram internado eles queriam dizer que ele foi pego. Quando essa notícia chegou lá em casa, também chegou na casa dos parentes e aí começou o rebuliço. Até hoje é ruim falar disso e muito doloroso”.

Invasão

“No dia da invasão (em 29 de agosto de 1968, a UnB foi invadida por policiais armados. Foi a mais violenta das invasões sofridas pela universidade), que coisa horrorosa. Foi o dia mais triste da minha vida. Vi aquela coisa toda e sabia que aquele arsenal todo era por causa do Honestino. Nesse dia, ele perdeu os óculos e ele era extremamente míope. No dia da invasão o prenderam”.

Pegadas

“O Matheus (filho de Norton Monteiro Guimarães, irmão caçula de Honestino, estuda no Centro Universitário IESB onde é presidente do DCE) se empolgou muito com o tio. Mas eu não fico muito feliz não, viu. Não aprovei nem reprovei, só não fico feliz. A história se repete, é um ciclo e ela se repete”.

Clandestinidade

“Eu acabava sabendo onde encontrá-lo. Uma vez fui para a casa de uma amiga minha no Rio e a filha dela, Bete, era amiga do Honestino. Cheguei sem avisar e assim que coloquei os pés na casa dela, Honestino ligou. Neste dia nos encontramos no Jardim Botânico pela última vez”.

UNE

“O Honestino foi presidente da UNE mais de uma vez. A última foi já na clandestinidade. Ele não abandonou a bandeira da entidade, não deixou a UNE morrer”.

Pacto

“Ele nunca denunciou ninguém. Nunca alguém caiu depois do depoimento dele, depois que o pegaram. Quanto mais nomes melhor, não é? Mas ele não revelou o nome de ninguém”.

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