Assassinato de Alexandre Vannucchi Leme Gerou protestos da sociedade

Revista da Adusp nº34, maio de 2005
Por Marina Gonzalez

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Em 1973, Alexandre Vannucchi Leme tinha 22 anos e cursava o quarto ano de Geologia na USP. Era um ótimo aluno, foi o primeiro colocado no vestibular, participava do movimento estudantil e militava no grupo clandestino Ação Libertadora Nacional (ALN). Na manhã de 16 de março, foi preso por agentes do II Exército, pertencentes ao Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). Até hoje não se sabe ao certo como e onde Alexandre foi capturado, mas o fato é que sobreviveu por pouco mais de 24 horas nas mãos dos torturadores do DOI-Codi.

A confirmação de sua morte veio somente uma semana depois, com a publicação de um comunicado policial. A versão oficial sustentava que Alexandre morrera a caminho do hospital, depois de ser atropelado por um caminhão. Ele teria sido conduzido pelos órgãos de segurança até o bairro do Brás, para mostrar onde tinha um “ponto” com um companheiro de grupo, e teria tentado fugir.

Note-se que a mesma explicação já havia sido usada para justificar o assassinato de Antonio Benetazzo, preso em 28 de outubro de 1972 e morto dois dias depois. No final da década de 1960, Benetazzo era estudante de Arquitetura, presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Filosofia e professor em cursos pré-universitários. Diferentemente de Alexandre, abandonou a USP para se dedicar à luta armada contra o regime militar, e desde 1969 vivia na clandestinidade.

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A morte de Alexandre, apelidado “Minhoca” pelos colegas, teve repercussão imediata. Outros estudantes também haviam sido presos e era preciso tomar alguma atitude. O Conselho de Centros Acadêmicos declarou luto na USP e os alunos pressionaram por uma intervenção do então reitor Miguel Reale que, num ofício à Secretaria de Segurança Pública do Estado, solicitou informações sobre a morte de Alexandre “aos órgãos competentes”. A resposta, porém, conteria as mesmas informações já divulgadas pelos jornais.

Também partiu dos estudantes a idéia de convidar dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, para realizar uma missa em memória do colega assassinado. A celebração na Sé, marcada para o dia 30 de março, transformou-se na primeira grande manifestação pública de oposição à Ditadura desde as manifestações de 1968.

Centenas de pessoas que estiveram na missa foram levadas ao DOPS, a maioria libertada em seguida. Panfletos assinados pelo fictício “Movimento dos Estudantes Democráticos”, provavelmente obra da repressão política, condenavam o suposto exagero das manifestações, pois o pesar pela perda de Alexandre estaria “se transformando numa crítica acintosa e ilegal ao governo”, “o ‘Minhoca’ (…) por suas ligações com bandos subversivos armados teve um triste fim”.

Partiu dos estudantes a idéia de convidar dom Paulo Arns para celebrar missa na Sé em memória de Alexandre, em 30 de março de 1973, primeiro grande ato de oposição à Ditadura desde 1968

Até a Divisão de Segurança e Informações (DSI) do Ministério de Minas e Energia, sediada na então Guanabara, via nas repercussões do caso o “recrudescimento de atividades esquerdistas” e a “profundidade do trabalho comunista no meio universitário” do Estado de São Paulo. O Informe 30/008, de 10 de maio de 1973, afirma que esse problema espalha-se não só na capital mas em diversas cidades do interior, e que o clero associou-se às manifestações. De fato, não faltam panfletos de centros acadêmicos do interior e relatos de agentes sobre missas em cidades como Sorocaba (onde moravam os pais de Alexandre), Botucatu, São Joaquim da Barra e Ribeirão Preto, em homenagem ao jovem assassinado.

O jornalista Caio Túlio Costa, au tor do livro Cale-se (São Paulo, ed. A Giraffa, 2003), que relata as atividades do movimento estudantil na USP no período compreendido entre a morte de Alexandre e o show de Gilberto Gil na Escola Politécnica em maio de 1973, lembra que o momento da prisão do estudante permanece desconhecido porque não houve testemunhas. As dúvidas sobre as circunstâncias de sua morte são ainda maiores porque não se tem acesso aos arquivos do DOI-Codi, órgão em cujas dependências ele teria sido assassinado: “Faltam-nos os documentos do DOI-Codi e também de outros órgãos como o SNI (Serviço Nacional de Informações) e o Cenimar (Centro de Informações da Marinha).”

Costa acredita tratar-se de relatórios e fotografias que poderiam ajudar a elucidar o caso. A documentação encontrada até o momento no acervo do DOPS em poder do Arquivo do Estado refere-se a episódios posteriores à morte de Alexandre, como a ida de José de Oliveira Leme ao DOPS, em busca de notícias do filho, o atestado de óbito, os relatos de missas e os impressos produzidos pelos centros acadêmicos da USP com a finalidade de denunciar o crime praticado pela repressão política.

Contudo, os papéis do DOPS ainda podem conter surpresas. Em 2004, o jornalista Mário Magalhães localizou ali laudos, do Instituto Médico-Legal e da Divisão de Identificação Civil e Criminal da Polícia, que confirmaram de modo irrefutável que outro militante da ALN, Virgílio Gomes da Silva, o “Jonas”, foi assassinado sob tortura em 1969.

Alexandre Vannucchi Leme foi enterrado como indigente. Os restos mortais foram entregues à família em 1983, dez anos após o seu assassinato.

Em 1976, os estudantes da USP criaram, em assembléia, o Diretório Central dos Estudantes-Livre Alexandre Vannucchi Leme.

“Subversivo tenta fugir mas morre atropelado”
Assim o jornal O Globo deu título à notícia da morte de Alexandre Vannucchi Leme, dias após o ocorrido. “Os órgãos de segurança revelaram que o terrorista Alexandre Vannucchi Leme, conhecido como ‘Minhoca’, morreu atropelado por um caminhão quando tentava fugir ao ser levado por agentes a um encontro com outro terrorista, no cruzamento das ruas Bresser e Celso Garcia”.

Nada menos do que três pessoas teriam testemunhado o atropelamento, segundo o jornal: “Três testemunhas contaram que presenciaram o acidente em que morreu o motorista”. Uma delas, “Alcino Nogueira de Souza, empregado de balcão da Confeitaria Santa Cruz (…), chegou a servir uma cerveja ao terrorista. Viu quando ele olhou para um lado e para o outro, atravessou correndo a rua e foi colhido pelo caminhão”.

O excesso de nomes e detalhes (inclusive a chapa do suposto caminhão atropelador) é pouco usual em casos de acidentes de trânsito, fazendo supor que a matéria de O Globo foi preparada em estreita colaboração com os órgãos de segurança. O texto afirma também que “com base em informações” de Minhoca foi possível “identificar” outros integrantes da ALN, o que é outra operação típica da repressão: sugerir que a pessoa assassinada delatou companheiros.

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