Dias de indignação

Jornal da USP, ano XIX no.672, 25 de janeiro a 1º de fevereiro de 2004
Por Maria Eugênia de Menezes

Um dos momentos mais dramáticos da história da USP, a morte do estudante de Geologia Alexandre Vanucchi Leme, em 1973, despertou o movimento estudantil e se transformou num marco da resistência civil, que contribuiu decisivamente para o enfraquecimento da ditadura, mostra livro do jornalista Caio Túlio Costa

O “Minhoca” não apareceu na festa de encerramento da semana de recepção aos calouros. Estranho que ele não viesse, mas o suspense não durou muito. A notícia foi como uma bomba. Um amigo seu chegou correndo, esbaforido. Disse que tinha certeza de que ele havia caído “na mão dos homens”.

Era um sábado. Dia 17 de março de 1973. Os novos alunos das Ciências Sociais comemoravam sua entrada na USP. “Minhoca” era o apelido de Alexandre Vanucchi Leme, 22 anos, estudante do Instituto de Geociências da USP. Naquele sábado, ele fora preso pelo aparelho policial da ditadura militar. Nunca se soube como, nem onde, nem em que condições. Naquele mesmo dia, um pouco antes das 19 horas, seu corpo dava entrada no IML.

Para reconstituir os dias posteriores à morte de Vanucchi Leme e seus desdobramentos, que não são poucos, o jornalista Caio Túlio Costa escreveu Cale-se. Lançado no final de 2003, o livro recorre a um ritmo cinematográfico para contar 70 tormentosos e decisivos dias na história dos 70 anos da USP. O recorte preciso, exatos 70 dias, não é aleatório. É esse o período que separa a morte de Vanucchi Leme do ponto máximo da mobilização para denunciá-la, um célebre show de Gilberto Gil, na Cidade Universitária. Nele, a canção Cálice, parceria de Gil com Chico Buarque, seria executada publicamente pela primeira vez.

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Foi também nesses dias de luto que o movimento de massas, reprimido desde 1968, ressurgiu e que os grupos políticos, que depois ajudariam a criar os grandes partidos de hoje, como o PSDB e o PT, se formaram. “Líderes atuais desses e de vários outros partidos mais à esquerda estavam presentes naquele show, naquele momento, naquelas discussões, naqueles problemas”, explica o jornalista.

Durante um ano, Túlio Costa dedicou-se à pesquisa para o livro. Nos arquivos do Dops, resgatou panfletos, relatos de assembléias e outros documentos — tudo aquilo que os estudantes e também a polícia produziram. O autor acredita que a ditadura militar não seja um período da história do Brasil devidamente estudado. “Momentos importantes dessa época ainda não foram pesquisados”, disse ele ao Jornal da USP. “Para isso, também é preciso que os arquivos sejam abertos. O acesso aos arquivos é de importância determinante para a reconstituição da história.” Para esclarecer as lacunas dessa história que ainda não havia sido contada por inteiro, ele também se valeu de uma série de entrevistas com pessoas envolvidas no episódio.

Aldeia gaulesa — Até 1973, a esquerda estava enfraquecida, dividida em grupos clandestinos. Os líderes estavam no exílio, fora do País ou na luta armada. Foi naquele momento que a história mudou.

A missa de sétimo dia que os estudantes organizaram por Alexandre Vanucchi Leme pode ser considerada o primeiro protesto antigovernamental de grande porte da década de 70. Na Catedral da Sé, conduzida por Dom Paulo Evaristo Arns, figura respeitada até pelos generais, a celebração reuniu milhares de pessoas. Entidades da sociedade civil, que até então preferiam fechar os olhos, começavam a se levantar contra a tortura. Vista sob esse ângulo, a morte do estudante pode ser considerada historicamente tão importante quanto a do jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Vladmir Herzog, morto pelos militares dois anos depois.

A morte de Vanucchi Leme era diferente das que se viam até então. Ele não era um terrorista, não participava da luta armada. Era um estudante. Para justificar sua morte, o DOI-CODI criou, como de costume, uma história falsa. Disseram que, numa tentativa de fuga, ele fora atropelado por um caminhão. O rapaz foi enterrado como indigente, sem caixão, em uma cova rasa. O corpo, a família só conseguiria reaver dez anos depois, em 1983.

No campus da USP, nas salas de aula, nos centros acadêmicos, os estudantes se mobilizavam. A revolta contra o assassinato do colega do Instituto de Geociências e outras 44 prisões de alunos da USP fazia ressurgir o movimento estudantil. A ditadura, vivendo ainda as glórias do milagre econômico, começava a perder o controle. Os militares pouco entenderam. Quanto mais ampliavam sua máquina de tortura e repressão, menos medo causavam.

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As discussões se acirravam entre os estudantes. De um lado, um grupo que acreditava que os alunos deveriam privilegiar questões ligadas à qualidade do ensino. Do outro, aqueles que queriam denunciar as prisões. Como nas histórias em quadrinhos de Asterix, sonhavam a Universidade como uma espécie de aldeia gaulesa, o reduto de obstinada resistência ao Império Romano. Se ninguém conseguia resistir em todo o Brasil, então a USP deveria ser um ponto de luta. A pretensão era enorme, com ares quase megalomaníacos. Mas deu certo.

Quem continuava na Universidade deveria trabalhar para mudar aquela situação. Os estudantes, então, conceberam um plano: chamar Gilberto Gil. Em um dos momentos mais críticos da ditadura, em condições totalmente hostis, o músico tropicalista fez um show na Escola Politécnica para denunciar as prisões em curso.

Com Chico Buarque de Holanda, Gil acabara de compor a canção Cálice. A música, que deveria ser apresentada no festival que a gravadora Phonogram promovera naquele ano, havia sido censurada no palco, com a retirada do som dos microfones. Seriam os alunos da USP os primeiros a ouvi-la.

Num claro gesto de desobediência civil, o cantor também levantou assuntos delicados: política, movimento estudantil, arte engajada versus arte pura, o imperialismo americano. O show que deveria ser de 30 minutos durou três horas. Era aquele o momento do desequilíbrio, da virada.

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“Pode-se dizer que o show organizado pelos estudantes da USP, com a participação de Gilberto Gil, 70 dias depois da morte de Vanucchi, foi o fato novo que conseguiu reunir cerca de mil pessoas num evento cultural e reforçou a alternativa de um movimento político estudantil voltado para a mobilização pacífica das massas — contra o regime, mas também contra a idéia de oposição armada”, explica Túlio Costa. Depois do silêncio imposto pelo AI-5, em 1968, os estudantes voltavam a se reagrupar e a questionar tanto os métodos da luta armada como os dos tradicionais partidos de esquerda. Novas correntes políticas, que não estavam atreladas aos partidos, ganham espaço. É o caso da Liberdade e Luta, a Libelu, corrente de inspiração trotskista, e da Refazendo, primeira diretoria eleita para o DCE Livre da USP. No dia 26 de março de 1976, o DCE foi reconstituído e batizado com o nome de Alexandre Vanucchi Leme.

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