Centro de Documentação Heremias Delizoicov -- Desaparecidos políticos
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Ficha Pessoal

Dados pessoais
Nome Alexandre Vannucchi Leme
Cidade Sorocaba
Estado SP
Data de nascimento 5/10/1950
Atividade Estudante universitário
Universidade Universidade de São Paulo/Instituto de Geociências
Dados da militância
Organização Ação Libertadora Nacional — ALN
Codinome Minhoca
Prisão 16/3/1973
Morto em Versão oficial: segundo documentos do DOPS e do IML — 17/3/1973, R. Bresser;
Segundo depoimento de companheiros de prisão: 17/3/1973, DOI-CODI/SP
Dados da repressão
Orgão de repressão Departamento de Operações Internas — Centro de Operações de Defesa Interna/SP. DOI-CODI/SP
Agentes da repressão Apelido: Dr. Jorge
Nome: Gaeta
Apelido: Mangabeira
Nome: Mário
Apelido: Oberdan ou Zé Bonitinho
Apelido: Marechal
Apelido: Dr. José
Apelido: Dr. Tomé
Nome: Caio
Apelido: Alemão
Apelido: Dr. Jacó
Nome: Silva
Nome: Rubens
Nome: Carlos Alberto Brilhante Ulstra
Apelido: Tibiriçá
Apelido: Peninha
Médico legista Isaac Abramovitch
Orlando Brandão

Biografia

Militante da AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL (ALN). Nasceu em 5 de outubro de 1950, em Sorocaba, SP, filho de José de Oliveira Leme e Egle Maria Vanucchi Leme. Foi morto, aos 22 anos de idade, em São Paulo.

Fez o ginasial no Instituto de Educação Estadual Dr. Júlio Prestes de Albuquerque, em Sorocaba/SP. Cursava o quarto ano de geologia na USP quando foi assassinado. Foi preso por agentes do DOI/CODI-SP no dia 16 de março de 1973, por volta das 11 horas. As torturas infligidas a Alexandre iniciaram-se assim que deu entrada nas dependências do DOI/CODI, tendo sido a equipe C a primeira a torturá-lo.

Tal equipe era chefiada pelo delegado de polícia conhecido pelo nome de "Dr. Jorge" e composta pelos seguintes elementos: escrivão de polícia Gaeta, tenente da PM Mário, investigador de polícia conhecido como "Oberdan" e o carcereiro do DOI/CODI conhecido como "Marechal".

No dia seguinte, Alexandre foi torturado pelos membros da equipe A, chefiada pelo torturador de nome "Dr. José" e pelo investigador conhecido por "Dr. Tomé" e composta por: "Caio" ou "Alemão", "Dr. Jacó", "Silva", "Rubens", todos orientados diretamente pelo comandante daquele departamento, o então major Carlos Alberto Brilhante Ulstra.
As torturas prolongaram-se até pouco depois do meio-dia, tendo então Alexandre sido colocado na cela-forte.

Por volta das 17 horas, o carcereiro conhecido pelo nome de "Peninha" foi retirá-lo da cela para levá-lo para mais uma sessão de tortura. Alexandre não respondia aos gritos do carcereiro que, intrigado, entrou na escura cela-forte e constatou que estava morto, saindo da cela aos gritos de "o homem morreu". Os torturadores correram todos para ver o corpo de Alexandre e o retiraram da cela-forte, arrastando-o pelas pernas.

Tal cena, assistida por todos os demais presos recolhidos às dependências do DOI-CODI naquele dia era brutal: Alexandre sangrava abundantemente na região do abdômen.

A morte de Alexandre foi justificada pelos torturadores, perante a acusação dos demais presos, como tendo sido provocada por suicídio com auxílio de uma lâmina de barbear.

Somente no dia 23 de março os órgãos de segurança divulgaram sua morte, com a notícia de que fora atropelado ao tentar fugir da prisão.

Tal versão foi desmentida categoricamente nos depoimentos prestados no mês de julho de 1973, perante a 1ª Auditoria Militar, pelos seguintes presos políticos: Luis Vergatti, Cesar Roman dos Anjos Carneiro, Leopoldina Brás Duarte, Carlos Vítor Alves Delamônica, Walkiria Queiroz Costa, Roberto Ribeiro Martins, José Augusto Pereira, Luís Basílio Rossi e Neide Richopo. Tais depoimentos foram citados pelo Ministro do STM Rodrigo Otávio Jordão Ramos no dia 26 de abril de 1978.

Como a nota oficial só foi divulgada vários dias após o assassinato de Alexandre, sua família só pôde localizar o corpo quando este já se encontrava enterrado. Detalhe bastante significativo é que Alexandre fora enterrado sem qualquer espécie de caixão, em cova rasa e forrada de cal-virgem, a fim de que a decomposição do corpo fosse acelerada e apagadas as marcas evidentes das torturas que o levaram à morte.

Um fato importante que evidencia a farsa montada para encobrir o assassinato de Alexandre sob tortura é a declaração do delegado Sérgio Fleury à família Vanucchi Leme que, em evidente e cínica confissão de "fracasso" dizia "não ter sido possível obter de Alexandre sequer o local de sua própria residência". Segundo o livro "Gritos de Justiça", de Mário Simas, publicado pela Fundação Getúlio Vargas, seus pais, em 20 de março de 1973, receberam um telefonema anônimo informando que Alexandre se encontrava preso no DOPS/SP. Lá e em outros órgãos da repressão onde o procuraram sempre ouviram negativas. Dias depois, quando sua morte já havia sido publicada pela imprensa, no IML/SP, foram informados que havia sido enterrado como indigente no Cemitério de Perus.

Apesar de haverem constituído advogado imediatamente após a notícia de sua prisão, somente 10 anos depois puderam resgatar seus restos mortais. Foi instaurado um inquérito pelo DEOPS para apurar a morte de Alexandre e encaminhado para a 2ª Auditoria Militar, onde o Juiz Auditor Nelson da Silva Machado Guimarães o encaminhou para o Comandante do II Exército e, como era de se esperar, foi arquivado sem solução.

A necrópsia, feita no IML/SP, em 22 de março de 1973, pelos Drs. Isaac Abramovitch e Orlando Brandão, confirma a falsa versão oficial publicada de que teria se atirado sob um veículo, sofrendo contusão na cabeça. A certidão de óbito, falsamente atesta sua morte em 17 de março de 1973, após atropelamento na Rua Bresser, em São Paulo, SP, quando era levado ao Hospital das Clínicas.

Em 1983, finalmente os restos mortais de Alexandre foram trasladados para Sorocaba, sua terra natal.

Alguns trechos de matéria sobre ele publicado no O Jornal do Campus/USP:

Desde muito cedo revelou inteligência viva, muito aberta a todos os conhecimentos humanos. Interessava-se por tudo e, assim que foi alfabetizado, foi tomado por um gosto enorme pela leitura. Não parou mais de ler.

Só depois de sua morte, seus pais souberam que Alexandre fora classificado em 1° lugar no vestibular para a Geologia da USP. Era um típico sorocabano, caipirão. Andava sempre com umas botinhas de cano curto, calças curtas. Era um nativo. Cara gozador, colocava apelido na escola inteira. Tirava um sarro de todo o mundo que não se adaptava às condições de campo nas excursões da Geologia. Cara que não conhecesse passarinho, cobra e história de assombração, ele pegava no pé do coitado. Uma antiga tradição da Geologia, da USP, reza que todo calouro deve receber um apelido. Alexandre ficou conhecido como Minhoca, talvez por ser baixinho, franzino e pelo grande interesse que demonstrou pela profissão. Tinha uma coisa que ele gostava de fazer: traduzir artigos estrangeiros sobre filosofia, política, economia. Ele já estava se especializando em teorias econômicas do 3° mundo, questões do subdesenvolvimento ou análise da história da pobreza.

Partilhava de todas as lutas comuns aos estudantes da época: contra o ensino pago, contra a falta de verbas, contra o fechamento do CRUSP. Por outro lado, como estudante de Geologia, foi extremamente preocupado com a questão dos recursos naturais do país devastados pelo capital estrangeiro. Sobre o ciclo da exploração do ferro, editou um boletim especial do Centro Acadêmico da Escola, no qual enumerava as principais jazidas e empresas exploradoras. Tomou posição contra a Transamazônica, do modo como estava sendo feita. E passou a fazer, junto com outros colegas, exposições e palestras em outras faculdades e escolas do 2° grau. Ninguém viu Alexandre ser preso, mas no dia 16 de março de 1973, ele já estava sendo torturado na Operação Bandeirantes (DOI-CODI/SP). Seus gritos o testemunhavam. Para a cela, voltou carregado da sala de torturas. Ainda pôde dizer aos outros presos: "Meu nome é Alexandre Vanucchi Leme, sou estudante de Geologia, me acusam de ser da ALN… eu só disse meu nome…"

No final da tarde do dia 17, os presos foram obrigados a ficar no fundo das celas, de costas. Mesmo assim, puderam ver um corpo ser arrastado, espalhando sangue por todo o pátio da carceragem. Alexandre fora assassinado.

No dia 30 de março de 1973, foi celebrada uma missa, na Catedral da Sé, por D. Paulo Evaristo Arns com a presença de 3 mil pessoas que chegaram até a Igreja, apesar da intensa repressão policial.

No dia seguinte, 31 de março, o governo comemorou o aniversário do Golpe de Estado de 64, a seleção brasileira jogou, as Forças Armadas marcharam e o general Médici discursou. A nota oficial de sua morte divulgada pelos órgãos de segurança nacional e publicada na grande imprensa informava que Alexandre era terrorista, membro da Ação Libertadora Nacional (ALN) - dissidência do PCB que tentou a luta armada - e morreu atropelado.

As práticas terroristas das quais foi acusado ocorreram quando Alexandre convalescia de uma operação de apendicite, conforme testemunhou seu médico, Dr. Cássio Rosa; ou quando assistia às aulas, como testemunharam colegas e professores. Os presos políticos na época declararam ao Superior Tribunal Militar que foram testemunhas da morte de Alexandre Vanucchi Leme nas dependências da Operação Bandeirantes, sob torturas. Mesmo diante de tantas provas, o caso foi arquivado. O Ministro Rodrigo Otávio Jordão tentou reabri-lo em 1978, mas seu voto foi vencido por 13 a 1.

Documentos

Documento pessoal

Conjunto de cópias de documentos pessoais de Alexandre encontrados no arquivo do DOPS. Alguns deles são: requerimentos de matrícula no curso de Geologia, do Instituto de Geociências, da Universidade de São Paulo (USP) de 5 semestres (1970-1972); histórico escolar do mesmo curso até o 2º semestre de 1972; ficha cadastral também nesta universidade e neste curso; ficha de exame de admissão no Instituto de Educação Estadual "Dr. Júlio Prestes de Albuquerque", Sorocaba, SP, de 20/12/62; certificado de conclusão do curso ginasial na escola citada, de 21/01/67; histórico escolar nesta escola; certidão de nascimento; diploma do Curso Colegial de Formação de Professores Primários do Instituto de Educação Municipal Dr. Getúlio Vargas, de 27/12/69; atestado médico; título eleitoral; certificado de dispensa do Exército.

Documento pessoal

Certidão de nascimento do Cartório de Registro civil de Sorocaba, SP, de 11/10/50.

Requisição de exame de cadáver

Requisição de exame do IML/SP, solicitada pelo DOPS/SP em 17/03/73. O documento informa tratar-se de elemento terrorista que, quando estava sendo transportado em automóvel pelos órgãos de segurança, atirou-se fora do mesmo, jogando-se sob as rodas de um carro que passava, recebendo ferimentos que ocasionaram a morte a caminho do Hospital das Clínicas.

Certidão de óbito

Documento de 19/03/73, sem timbre do cartório, encontrado no arquivo do DOPS.

Interrogatório

Documento do DOPS/SP, de 22/03/73, com depoimento de três testemunhas do atropelamento de Alexandre. A primeira é o balconista de uma confeitaria próxima do acidente, que conta ter vendido uma cerveja para um indivíduo que ficou na porta olhando para os lados, depois saiu correndo no momento em que o farol estava fechado para ele, sendo atropelado por um caminhão. O atropelado ainda levantou, caminhou para o lado oposto da rua e caiu sobre a caixa de um engraxate, quando duas pessoas vieram e o levantaram. A segunda testemunha é engraxate e trabalhava na esquina próxima onde aconteceu o acidente, de costas para a rua, não tendo ouvido nada por ter defeito de audição, apenas levando um susto quando um indivíduo caiu sobre ele. Várias pessoas vieram também nesta direção, duas agarraram o indivíduo e o levaram do local. A terceira testemunha que trabalha no bar próximo ao acidente, ouviu a freada do caminhão, viu um indivíduo cair sobre um engraxate e dois indivíduos o levarem.

Artigo de jornal

Terrorista morre ao tentar fuga.
Diário da Noite, 23 mar. 1973.
Terrorista morre atropelado no Brás. Notícias Populares, São Paulo, 23 mar. 1973. Terrorista morto e atropelado quando fugia. Última Hora, 23 mar. 1973. Artigo de 23/03/73 sem identificação da fonte: "Terrorista morreu atropelado na fuga" (capa) e "Terrorista atropelado e morto ao empreender fuga" (página policial). Artigos do arquivo do DOPS/SP, noticiando que Alexandre se encontrava preso em órgão de segurança e, ao ser transportado para um encontro com outro membro da Ação Libertadora Nacional (ALN), tentou fugir sendo atropelado por um caminhão, vindo a morrer no caminho para o hospital. Conta que Alexandre era estudante de Geologia na USP, que não vivia na clandestinidade, mas participou de diversas ações. As autoridades não liberaram a notícia de imediato pois informações de Alexandre teriam possibilitado a prisão de outros estudantes da USP, também pertencentes à ALN.

Artigo de jornal

Subversivo tenta fugir mas morre atropelado.
O Globo, Rio de Janeiro, 23 mar. 1973.
Terrorista morre atropelado no Brás. Folha de S. Paulo, São Paulo, 23 mar. 1973. Terrorista da ALN morre atropelado ao tentar fugir. Folha da Tarde, São Paulo, 23 mar. 1973. Artigos do arquivo do DOPS/SP, noticiando a morte de Alexandre por atropelamento, ao tentar fugir de agentes de segurança. Citam três testemunhas do acidente, além do próprio motorista do caminhão que o atropelou. Este diz que viu surgir, repentinamente, um indivíduo de cor branca correndo no cruzamento por onde dirigia, seguido por outras pessoas, as quais o socorreram após o impacto. Uma das outras teria servido uma cerveja a Alexandre, o qual, olhou para os lados, atravessou correndo a rua e foi pego pelo caminhão. O artigo elenca as ações terroristas cometidas por Alexandre e justifica que a notícia não foi liberada de imediato pois outros estudantes foram presos nos últimos dois dias, devido a informações de Alexandre.

Termo de declarações

Documento da Delegacia Especializada de Ordem Social, do DOPS/SP, de 26/03/73, de José de Oliveira Leme, pai de Alexandre. Declara que Alexandre estudava em São Paulo, indo quase todo fim de semana para Sorocaba onde morava a família. Tem um primo que se encontra preso, Paulo de Tarso Vannucchi. Alexandre achava absurda a atitude de Paulo, pois acreditava que toda e qualquer transformação deveria ser feita pelos meios naturais e através dos tempos. De uns dois anos para cá não tocava mais em assuntos políticos.

Folheto

Comunicado sobre a morte de Alexandre Vannucchi Leme, de 26/03/73, em nome de vários centros acadêmicos do Estado de São Paulo, relatando a indignação frente aos atos que vêm sendo cometidos contra a justiça, a liberdade e a dignidade humana.

Artigo de jornal

Grupo do PCB é absolvido no Rio.
O Estado de S. Paulo, São Paulo, 27 mar. 1973.
Em parte do artigo intitulada "Geologia faz carta aberta", comunica que alunos do curso de Geologia, da Universidade de São Paulo (USP), divulgaram carta aberta ao público, estranhando as graves acusações que pesam sobre os estudantes Alexandre Vanucchi Leme (falecido) e Adriano Diogo (detido), "e que não condizem com o procedimento por eles adotado na Escola". O documento também diz que os alunos estranharam as condições em que estas prisões se efetuaram, pois foi negado o direito de defesa e de comunicação aos presos. O artigo pertence ao arquivo do DOPS e inclui anotação à mão sobre esta parte, fazendo referência a este boletim na Cidade Universitária.

Artigo de jornal

Comunicado do falecimento de Alexandre Vanucchi Leme, pelos seus colegas do Curso de Geologia, da USP, e convite para a missa de sétimo dia. Publicado no jornal O Estado de S. Paulo, São Paulo, de 29 mar. 1973. Documento do DOPS.

Ofício

Comunicado ao diretor geral de polícia do DOPS/SP de 12/04/73 sobre a abertura de inquérito para apurar a autoria do homicídio de Manoel Henrique de Oliveira praticado por membros da Ação Libertadora Nacional (ALN), segundo panfletos deixados no local. Informa que durante as investigações foram mortos em tiroteio com a polícia, por terem reagido à prisão, Francisco Emanuel Penteado, Francisco Seiko Okama e Arnaldo Cardoso Rocha, considerados os autores do homicídio em questão, segundo o relatório policial. A partir de documentos encontrados com estas pessoas, Alexandre Vanucchi Leme foi detido e acabou morto por atropelamento, o que também será apurado no inquérito aberto.

Ofício

Documento da Procuradoria Geral da Justiça do Estado de São Paulo ao DOPS/SP, de 12/04/73, solicitando informações sobre a existência de inquérito relacionado à morte de Alexandre Vanucchi Leme. Acompanha ofício em resposta, do mesmo dia, confirmando a existência de inquérito policial instaurado para apurar as atividades subversivas da Ação Libertadora Nacional (ALN), na cidade de São Paulo. Comunica ainda que, estando Alexandre Vanucchi Leme envolvido com esta organização, estava sob investigações quando suicidou-se indo de encontro a um caminhão.

Artigo de revista

"Comunicato dei Centri Studenteschi sulla morte di Vannucchi Leme."
Tribunale Russel Brasile, Roma, n. 2, mar./apr. 1973, p. 11-12.
Artigo em italiano sobre a morte de Alexandre, a evidente falsidade da versão oficial e a indignação sobre a situação do país em virtude da constatação desta morte não ser um fato isolado.

Artigo de jornal

Silva, Cesar. "La muerte de un estudiante en San Pablo actualiza el problema de las torturas." La Opinion, 7 abr. 1973, p. 2. Artigo em espanhol, publicado em jornal da América Latina, sobre a missa em memória de Alexandre Vanucchi Leme e a evidência política deste evento: muitas horas antes, toda a polícia estava mobilizada no local da missa, a qual também bloqueou a Cidade Universitária e impôs censura aos meios de comunicação na cobertura do evento. O autor defende que esta missa tomou grande dimensão política em função da indignação do país contra a barbárie do regime militar. Cita o documento da Comissão Popular de Defesa dos Direitos Humanos (CPDDH) que divulgou clandestinamente sua versão sobre a morte e afirma que Alexandre não é um caso isolado.

Artigo de revista

Veja, n. 239, 4 abr. 1973, p. 14.
Nota publicada na seção Datas: morreram: "o estudante de geologia Alexandre Vanucchi Leme, dia 24, em São Paulo".

Requerimento

Requerimento de Inquérito Policial Militar, solicitado pelos pais de Alexandre, em 11/04/73. Contesta a versão oficial da sua morte. Em anexo, está outro requerimento, de 13/12/78, com o mesmo pedido, mas sem papel timbrado do advogado.

Depoimento

Maciel, Lysaneas. Um assassinato político: Alexandre V. Leme (estudante). Discursos do Deputado Federal Lysaneas Maciel, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), e os debates que se seguem, na Câmara dos Deputados, provavelmente no período de 04/73. Acompanha parte deste material, encontrado no arquivo do DOPS.

Relatório

Documento do Serviço de Informações do DOPS/SP, de 14/06/73, a ser difundido à comunidade de informações, sobre a morte do comerciante Manoel Henrique de Oliveira. Comunica que Alexandre Vannucchi Leme seria mesmo responsável pela morte de Manoel, segundo inquérito instaurado para apurar o caso. Também constatou-se que estava em organização um grupo de esquerda de conscientização da massa estudantil, com o intuito de instalar o regime comunista no país. Esta organização tinha ligações com o Movimento Operário e o Movimento Comunista Internacionalista, por meio de dois operários. Sugere que a Reitoria da Universidade deveria instaurar sindicância administrativa para apurar corrupção nos centros acadêmicos e a influência ideológica marxista que impera no seio da USP.

Artigo de revista

"Caso Alexandre Vannucchi Leme."
SEDOC — Serviço de Documentação, v. 6, jul. 1973, p. 99-109.
Revista publicada pela Editora Vozes, cujo artigo reúne vários documentos: texto preparado por ocasião da missa de sétimo dia da morte de Alexandre pela Comissão arquidiocesana; a homilia para esta missa de Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo de São Paulo (transcrito do jornal O São Paulo, de 07 a 13/04/73); comunicado do bispo de Sorocaba, de boletim da CNBB; nota do Conselho de presbíteros de Sorocaba (publicada em jornal local); comunicado dos centros acadêmicos de São Paulo e Rio de Janeiro; e outros. Inclui, também, ofício do secretário de Segurança Pública esclarecendo a morte de Alexandre ao reitor da Universidade de São Paulo (publicado na Folha da Tarde, de 02/04/73); o conteúdo consta também em relatório do DOPS. O artigo está incompleto.

Relatório

Documento da Delegacia Especializada de Ordem Social de 03/08/73, informando os dados pessoais e de atividades de membros da Ação Libertadora Nacional indiciados em inquérito.

Impressões digitais

Ficha de identificação dactiloscópica incompleta, do arquivo do DOPS, de 09/08/73.

Relatório

Documento do arquivo do DOPS, sem nome de remetente e destinatário, produzido provavelmente logo após a morte de Alexandre, descrevendo os acontecimentos que levaram a ela. Cita que Alexandre, pertencente à Ação Libertadora Nacional (ALN), foi preso após investigações quando não informou seu endereço mas entregou seus companheiros, os quais foram presos. Declarou que teria um encontro com um companheiro, sendo levado pelos agentes de segurança para o local. Lá, tentou atravessar a rua quando o semáforo estava recém-aberto, julgando passar e não ser perseguido, visto o volume do tráfego. Foi atropelado por um caminhão e morreu no caminho para o hospital. Justifica-se a demora na difusão da informação devido à necessidade de aprofundamento nas investigações que culminaram com a dispersão de uma parte da ALN que atuava na USP. A localização do endereço de Alexandre era de extrema importância aos órgãos de segurança, devido à farta documentação que possivelmente estaria lá. Após a morte de Alexandre, foi seu pai quem forneceu o endereço, mas tudo que houvesse de interesse já havia sido retirado. Finaliza com a lista de ações que teriam sido cometidas por Alexandre, segundo suas próprias declarações.

Depoimento

Documento produzido pelo Centro Acadêmico XI de Agosto, após a morte de Alexandre Vannucchi Leme, comunicando estranhamento quanto às circunstâncias de sua morte e às outras prisões efetuadas. Este documento consta em documento do DOPS do período e foi publicado em pequeno livro sobre Alexandre, cinco anos depois, intitulado "Meu filho Alexandre Vannucchi".

Folheto

Documento elaborado provavelmente por familiares, por volta de 1974, denunciando que o seqüestro e o desaparecimento de pessoas presas pela polícia política brasileira não constituem casos isolados. Comunica que a Arquidiocese de São Paulo prepara um dossiê que será enviado ao Vaticano com os nomes e detalhes sobre as prisões arbitrárias e o posterior desaparecimento dos presos. Informa casos de vários desaparecidos, cujos familiares lutam sem sucesso por informações. Cita o desaparecimento precedido de prisão, a 23/02, dos estudantes Eduardo Collier Filho e Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira; a prisão do professor Luiz Ignácio Maranhão em 04/03, presumivelmente pelo delegado Sérgio Fleury e seu posterior desaparecimento; prisão e desaparecimento de David Capistrano, de 60 anos, e José Roman, de 55 anos, acusados de pertencerem ao Partido Comunista Brasileiro (PCB); a prisão, no ano anterior, de Honestino Guimarães, líder estudantil do DCE de Brasília, juntamente com o estudante Humberto Câmara Neto, ambos desaparecidos desde 09/73; o desaparecimento, também nesta época, do deputado cassado em 1964, Paulo Stuart Wright, preso em São Paulo; a prisão dos jovens Alexandre Vannucchi, José Carlos da Mata Machado e Gildo Lacerda e a divulgação na imprensa pelos órgãos de segurança, semanas depois, de suas mortes por "atropelamento" e em "tiroteio com a polícia". Também transcreve alguns trechos da carta enviada ao Ministro da Justiça, Dr. Armando Falcão, em 03/04/74, sobre o desaparecimento de Eduardo Collier Filho e Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, solicitando que seja informado o paradeiro de ambos.

Ficha pessoal

Documento da Delegacia de Ordem Política e Social, do Paraná, de 13/08/75. Consta que o nome de Alexandre está no inquérito que apurou as atividades da Ação Libertadora Nacional (ALN), que é representante do DCE-Livre da USP e que morreu atropelado quando tentava fugir dos agentes de segurança. Cita que, segundo o Jornal do Brasil, publicado no Rio de Janeiro, de 29/03/78, Alexandre morreu sob torturas, em 17/03/73, em São Paulo.

Artigo de revista

"Depois da sentença Herzog, outros procuram justiça. Abertura assim? Ou assim?"
Isto é, São Paulo, n. 98, 8 nov. 19(?).
Artigo incompleto, relatando vários casos de presos políticos cujas mortes por tortura tentaram ser desmentidas pelas versões oficiais da polícia, em especial o caso de Alexandre Vannucchi Leme.

Livro

Braga, Teodomiro, Barbosa, Paulo. Meu filho Alexandre Vannucchi. São Paulo: Edição S.A., 1978. 24 p.
Depoimento de Egle e José Vannucchi, relato da morte e dos fatos decorrentes dela, nota dos estudantes na época e trecho do testemunho dos presos e discurso não publicado que o então Deputado Lysaneas Maciel pronunciou na Câmara dos Deputados, em 04/73.

Artigo de jornal

Folha de S. Paulo, São Paulo, 29 mar. 1978, p. 17.
"Estudantes manifestaram-se", "Em SP, sem incidentes", "As atividades dos alunos de Direito, da Poli e PUC", "Os pais de Alexandre falaram" e "Palavras do governador". Descreve o "Dia Nacional do Protesto", comemorado no dia anterior por cerca de quatro mil estudantes na Faculdade de Medicina, da Universidade de São Paulo (USP), quando foi lido manifesto em memória de Edson Luiz e Alexandre Vannucchi Leme. Não houve interferência da polícia que se manteve de prontidão, cercando todo o quarteirão da Universidade. Também no dia anterior houve manifestação de estudantes realizada pelo Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade São Francisco, debate sobre a anistia na Escola Politécnica da USP e reunião de estudantes na PUC para preparar ida ao ato público da Faculdade de Medicina.

Relatório

Apelação denominada voto vencido, assinada pelo ministro general Rodrigo Octávio Jordão Ramos, em 26/04/78. Contesta a versão oficial da morte de Carlos Nicolau Danielli e de Alexandre Vannucchi. Ambos, segundo várias testemunhas citadas, morreram na OBAN, em São Paulo, SP, em conseqüência das torturas sofridas lá. No entanto, foi divulgado pelos órgãos de segurança que Carlos morreu em um tiroteio e que Alexandre, ao tentar fugir dos agentes de segurança, foi atropelado por um caminhão.

Artigo de jornal

Artigos da Folha de S. Paulo
São Paulo, 27 abr. 1978, p. 10.
"A Revolução degradou-se, denuncia Tancredo Neves", "Política não é para militares, diz Bethlem", "General nega declaração de nazista", "Acusada relata tortura e morte de preso no STM", e outros. Este último trata do depoimento de defesa da presa política Neide Richopo, em 15/02/73, como parte do processo de 40 pessoas acusadas de pertencerem ao Partido Comunista do Brasil (PC do B). Neide conta ter presenciado o assassinato sob tortura de Alexandre Vannucchi Leme. Também o casal César Augusto e Maria Amélia Teles afirma ter ouvido os últimos gritos de Carlos Nicolau Danielli. Outro caso citado de prisão irregular e torturas refere-se a José Genoíno Neto. O relator do processo conta que a estrutura da organização era formada por um comando nacional, do qual faziam parte: Elza Lima Monserat, Ângelo Arroyo, Carlos Nicolau Danieli, João Amazonas Souza Pedroso, Lincoln Cordeiro Oest, Maurício Grabois, Pedro Pomar, Dineas Fernandes Aguiar e Luiz Vergatti.

Artigo de jornal

"No STM, novas denúncias em julgamento de presos."
O Estado de S. Paulo
São Paulo, 27 abr. 1978, p. 24.
Noticia que a morte de Alexandre Vannucchi Leme nas dependências do DOI-CODI e o seqüestro de José Genoíno por 11 meses no sul do Pará, foram denunciados no Superior Tribunal Militar pelos advogados de 40 pessoas acusadas de tentar reorganizar o Partido Comunista do Brasil (PC do B). Também é dada como suspeita a versão sobre a morte de Carlos Nicolau Danielli, pois foi preso juntamente com o casal César e Maria Amélia Teles, por não parecer possível que uma pessoa presa pela polícia possa ser armada por ela mesma.

Artigo de jornal

"O STM nega apuração de mortes em SP."
Folha de S. Paulo
São Paulo, 9 maio 1978.
O Superior Tribunal Militar negou a apuração das denúncias sobre a morte de Alexandre Vannucchi Leme e de Carlos Nicolau Danielli, que teriam ocorrido no DOI-CODI/SP, sob tortura. Apenas o general Rodrigo Otávio Jordão Ramos votou a favor. Durante o julgamento foi lido o depoimento de Neide Richopo, que presenciou a morte de Alexandre, o viu sendo arrastado já morto, e, depois, a versão oficial de que teria sido atropelado numa tentativa de fuga. O casal Maria Amélia e Cesar Augusto Teles também presenciaram a tortura e morte de Carlos, vendo depois os jornais dizendo que ele teria morrido em um tiroteio com a polícia. O julgamento também reduziu as penas de alguns réus.

Ficha pessoal

Documento do IML/SP, de 22/03/79, com dados sobre o atestado de óbito.

Artigo de jornal

Parte de artigo, sem título, do Jornal Movimento
São Paulo, 27 ago./ 9 set. 1979, p. 9.
Descreve a forma como a polícia encobria as mortes de presos políticos por tortura. Segundo depoimento de um ex-funcionário do IML, num primeiro momento os próprios policiais levavam os corpos para serem enterrados na Estrada Velha de Cotia, em São Paulo. Mais tarde, foi necessário sofisticar os métodos e o preso era enterrado com seu nome falso. Isto também se tornou falho pois algum militante poderia denunciar os nomes. Veio então a terceira fase, quando os policiais passaram a montar verdadeiras operações de substituição de cadáveres, uma vez que os corpos de indigentes ficavam até 40 dias aguardando identificação no IML. No caso de Alexandre Vannucchi Leme, as testemunhas da morte de fato viram o atropelamento de um indivíduo. Já Susana Lisbôa não encontrou nenhuma foto do marido Luiz Eurico Tejera no IML e foi informada de que só fotografavam corpos de desconhecidos; no entanto, Luiz foi enterrado como indigente. Norberto Nehring, preso e morto no cárcere pela ação de Fleury, teve seu corpo trocado pelo próprio Fleury que se aproveitou do suicídio de um estrangeiro num hotel próximo à sede do DOPS. Eduardo Leite, o Bacuri, foi entregue à família com a versão de morte em tiroteio; mas, sem a "máquina de atestados", como explicar os dois olhos vazados, as orelhas decepadas e todos os dentes arrancados? O corpo de Luís Eduardo Merlino foi em vão procurado pelos seus familiares no IML até que um parente burlou a vigilância e abriu gaveta a gaveta, encontrando o que buscava. Caso semelhante foi o do estudante Manoel Lisboa de Moura, torturado e morto, noticiado como morte devido a tiroteio. No Cemitério Dom Bosco, de Perus, estão enterrados vários desaparecidos que a polícia não assumiu sequer a prisão: Luiz Eurico, Dênis Casemiro, Iuri Xavier Pereira, Alex Gomes de Paula (de fato, Alex de Paula Xavier Pereira, enterrado com o nome falso de João Maria de Freitas) e, provavelmente, Alexandre Vannucchi Leme. O IML era peça fundamental nestas operações e, por isso, uma das principais manifestações dos médicos que lutam pelo fim do aparelho repressivo do Estado é a não subordinação do IML à Secretaria de Segurança Pública.

Ofício

Requerimento dos pais de Alexandre ao Serviço Funerário, de 17/03/83, solicitando autorização para transferir seus restos mortais do Cemitério de Perus para o jazigo familiar em Sorocaba. Acompanha convite para celebração litúrgica do traslado dos restos mortais de Frei Tito e de Alexandre Vanucchi Leme, em 25/03/83.

Artigo de jornal

"Bispo levará cinzas de Frei Tito para o Brasil."
Folha de S. Paulo, São Paulo, 19 mar. 1983.
Relata que bispo trará as cinzas de Frei Tito ao Brasil. Frei Tito foi preso e torturado em 1969 e, libertado, foi para o exílio na França, onde suicidou-se, em 1974, por não conseguir conviver com os traumatismos adquiridos. Cita que haverá um ato litúrgico em intenção de Frei Tito e de Alexandre Vannucchi Leme, estudante da USP, que teve sua morte atribuída a misterioso acidente de carro.

Solicitação de exumação de corpo

Requerimento ao Cemitério Dom Bosco, feito por José de Oliveira Leme, pai de Alexandre, em 24/03/83. Acompanham as guias de arrecadação.

Artigo de jornal

"Emoção marca ato por Frei Tito e Vannucchi."
Folha de S. Paulo, São Paulo, (sem data, provavelmente, 03/83).
Relata a celebração litúrgica em memória de duas vítimas dos órgãos de segurança no Brasil: o frei dominicano Tito de Alencar Lima, que se suicidou, em 1974, aos 29 anos, na França, em conseqüência das torturas sofridas no DOPS e na sede da Operação Bandeirantes (OBAN), e Alexandre Vannucchi Leme, morto em 1973, aos 21 anos, por não ter resistido às torturas nas celas do DOI-CODI, segundo apontam outros presos políticos. Descreve a celebração e traz trecho da entrevista do frei Domingos Maia Leite sobre a tortura sofrida por Frei Tito.

Evento/ Homenagem

Convite para inauguração da Escola Estadual de Primeiro Grau "Alexandre Vannucchi Leme", em Ibiúna, SP, no dia 11/11/83, lembrando ser Ibiúna o local da realização do Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1968, reprimido violentamente com a prisão de todos os congressistas.

Artigo de jornal

Advogados querem reabrir processos. Artigo sem data e fonte, sobre quatro processos que devem ter sua reabertura pedida nos próximos dias, referentes à morte do primeiro-tenente PM José Ferreira de Almeida, que teria cometido suicídio na prisão; do estudante Alexandre Vannucchi Leme, dado como atropelado quando tentava fugir de agentes de segurança; de João Batista Franco Drummond, que também teria morrido atropelado; e do jornalista Vladimir Herzog, que teria se matado no DOI-CODI. Estes pedidos são possíveis graças aos fatos novos em decorrência das declarações, divulgadas pela imprensa, do diretor do IML Harry Shibata. Há uma descrição de cada um dos casos, apontando algumas incongruências.

Parte de livro

Arns, Paulo Evaristo. Brasil nunca mais: um relato para a História. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 254-256.
Parte do livro sobre Alexandre, onde consta o depoimento de vários presos afirmando sua morte após tortura.

Artigo de jornal

Transcrição de artigo publicado no Jornal do Campus (USP)
São Paulo, n. 31, em 16/10/86.
Conta que Alexandre nasceu em Sorocaba, desde cedo mostrou interesse pela área de Geologia e na faculdade partilhava de todas as lutas comuns aos estudantes, assim como preocupava-se com a questão dos recursos naturais do país devastados pelo capital estrangeiro. Apresenta a história de sua prisão e morte e os depoimentos de presos que demonstram que Alexandre morreu sob torturas e que os atos de que foi acusado não eram verdadeiros.

Artigo de jornal

"Alexandre Vannucchi Leme: verdades e mentiras."
Jornal do Campus (USP), São Paulo, 16 out. 1986.
Descreve a ida de Seu José, pai de Alexandre, a São Paulo aos órgão policiais, assim que soube, por um telefonema anônimo, que seu filho havia sido preso e as contradições com as quais se deparou: soube pela imprensa que Alexandre havia sido morto por atropelamento enquanto fugia; no IML constatou que havia sido enterrado às pressas como indigente; no DOPS, o delegado Sérgio Paranhos Fleury quis presenteá-lo com a placa do caminhão que o atropelou e, em seguida, o delegado Edsel Magnotti disse que a morte foi suicídio. Além disso, como foi verificado depois, as práticas terroristas das quais foi acusado ocorreram quando Alexandre convalescia de uma operação de apendicite ou quando assistia às aulas; a participação na Ação Libertadora Nacional (ALN) foi negada por Ronaldo Queiroz, membro da organização metralhado pela polícia em São Paulo; o atropelamento não teve boletim de ocorrência e o motorista disse que havia atropelado um velho; e vários presos declararam sua morte por tortura. Mesmo assim, o caso foi arquivado. Em 1978, tentou ser reaberto pelo Ministro Rodrigo Otávio Jordão, mas seu voto foi vencido por 13 a 1. O artigo apresenta também breve histórico das idéias, das lutas e do assassinato de Alexandre.

Artigo de jornal

Teich, Daniela Hessel. "Legista depõe na CPI sobre desaparecidos."
O Estado de S. Paulo, São Paulo, 8 fev. 1991.
Trata do depoimento do médico Isaac Abramovich perante a Comissão Parlamentar de Inquérito, da Câmara Municipal de São Paulo, que investiga o destino de presos políticos. O médico é acusado de emitir laudos necroscópicos falsos de vítimas da polícia política à época em que trabalhava no IML/SP. O legista alegou inocência, mas teria assinado o laudo de Alexandre Vannucchi Leme, no qual afirma que o estudante teria se atirado sobre um automóvel; no entanto, presos políticos e policiais confirmam que Alexandre foi torturado. Também em Minas Gerais, o Movimento Tortura Nunca Mais está acusando 12 médicos legistas que teriam assinado laudos falsos de presos políticos mortos de 1974 a 1979. A identificação de pessoas acusadas de torturar e matar presos políticos teve início com a revelação da vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, em Perus, São Paulo. Lá foram encontradas as ossadas de Joaquim Alencar Seixas, Carlos Nicolau Danielli, Luís Eurico Tejera Lisboa, os irmãos Iuri e Alex de Paula Xavier, Frederico Mayr e Flávio Carvalho Molina (este ainda não identificado, mas acredita-se que seja uma das ossadas da vala clandestina). Segundo o artigo, também foi enterrado, no Cemitério Vila Formosa I, na Zona Leste de São Paulo, o corpo de José Maria Ferreira de Araújo. No entanto, apesar de terem sido encontrados documentos nos arquivos do IML/SP sob o nome falso de Edson Cabral Sardinha informando que seus restos estariam na quadra 11, sepultura 119 do Cemitério de Vila Formosa I, nunca foi possível encontrá-los, pois houve alteração da quadra.

Avaliação de laudos de corpo delito

Observações de médicos legistas, da segunda metade da década de 90, sobre o laudo de necrópsia de Alexandre. O doutor Antenor Chicarino destaca o fato de que o laudo aponta atropelamento na Rua Bresser e óbito a caminho do Hospital das Clínicas, mas cita também a presença de suturas. Acaso as suturas foram feitas depois de morto? Como explicar o atropelamento sem lesões externas de membros inferiores? Destaca ainda a incompatibilidade da lesão craniana com a descrição da hemorragia intracriana. O doutor Dolmevil cita com estranheza o fato do atropelado apresentar contusões na região occipital e nenhum ferimento nas faces que deveriam estar voltadas para o chão. A hemorragia descrita não acarretaria um óbito tão rápido (a caminho do hospital) pois sequer houve edema cerebral. Também não é natural que as roupas estivessem íntegras e limpas após ter-se atirado sob um automóvel. 2504

Relatório

Documento da Comissão Especial - Lei 9.140/95
Brasília, 18/01/96.
Relatora: Suzana Keniger Lisboa.
Referente ao requerimento de José e Egle Vannucchi Leme, pais de Alexandre, para o reconhecimento da morte e inclusão de seu nome nos termos da Lei 9.140/95. Traz as circunstâncias da morte de Alexandre e a conclusão de Suzana favorável ao deferimento do pedido.

Artigo de jornal

Bosi, Alfredo. "Um estudante chamado Alexandre."
Jornal da USP, São Paulo, 18 a 24 ago. 1997, p. 2.
Artigo de professor da USP lido na sessão de abertura do Congresso dos Estudantes da USP, promovido pelo DCE-Livre "Alexandre Vannucchi Leme". Discorre sobre as ações de Alexandre junto à USP e as circunstâncias de sua morte, traçando uma análise deste período do país.

Jornal/Revista

Teoria & Pesquisa
São Carlos, n. 20-23, jan./dez. 1997.
Número temático da revista em virtude dos 25 anos da morte, sob tortura, do estudante Alexandre Vannucchi Leme. No artigo "Anatomia de um crime: repressão, direitos humanos e o caso de Alexandre Vanucchi Leme", Kenneth P. Serbin revê o período Médici sob novos ângulos, examinando o papel da Igreja Católica, os bastidores da relação Igreja-Estado e o início da luta em defesa dos direitos humanos no país. Na segunda parte, em "Tolerância e intolerância no mundo contemporâneo", Valter Roberto Silvério, aborda a temática tolerância/intolerância baseado na Filosofia Política e na Sociologia clássicas e contemporâneas.

Cartaz

Ab'Saber, Aziz Nacib. "Em memória de Alexandre Vannucchi Leme."
São Paulo, 17/03/98.
O autor faz uma exaltação à memória de Alexandre. Aponta a necessidade de que as universidades brasileiras tenham disciplinas voltadas para a antecipação dos impactos de projetos como um ponto a mais no ideário do aperfeiçoamento da democracia, citando que uma das principais reflexões críticas de Alexandre dirigidas a projetos duvidosos de governantes, estava em suas considerações sobre a construção da Transamazônica, concluindo que ele realmente tinha razão.

Folheto

Documento sobre Ronaldo Mouth Queiroz, em 17/03/98, pelos vinte e cinco anos de sua morte, feito pelos colegas geólogos e outros companheiros. A homenagem também se estende a Alexandre Vannucchi Leme, que morreu apenas vinte dias antes de Ronaldo.

Cartaz

Cartaz de divulgação do evento de 25 anos da morte de Alexandre Vannucchi Leme, no Anfiteatro do Departamento de História da USP, em 17/03/98, realizado pela Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos, Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, DCE-USP e Departamento de História da USP. Apresenta os componentes das mesas redondas.

Parte de livro

Teles, Janaína (org.). Mortos e desaparecidos políticos: reparação ou impunidade?
São Paulo: Humanitas - FFLCH/USP, 2000. p.172-176.
Lista de nomes dos presos políticos cujas famílias receberam indenização do governo por este ter assumido a responsabilidade pela morte ou desaparecimento dos mesmos.

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