A história de uma morte sem explicação

estadao.com.br, 16 de março de 2008
Fausto Macedo

Há 35 anos, o estudante de Geologia da USP Alexandre Vannucchi Leme morria em uma cela da repressão

Alguém telefonou para a família Vannucchi, faz 35 anos, e disse: "O Lê tá preso em São Paulo."

Cinco dias depois, uma sexta-feira, 23 de março de 1973, os jornais chegaram às bancas com a informação, apenas uma nota, sobre audacioso terrorista que morreu atropelado por um caminhão quando tentava escapar de um cerco policial no Brás.

Alexandre Vannucchi Leme, que tinha 22 anos e hoje teria 57, foi alvo de célebre farsa da repressão, que chocou a Igreja e desencadeou reação dos estudantes contra o regime dos generais.

Ele fazia o quarto ano de Geologia da Universidade de São Paulo (USP) quando os encapuzados da Operação Bandeirante (Oban) — organização paramilitar que ganhou as ruas a partir de 1969 — o capturaram, na tarde do dia 16 de março daquele ano, sob suspeita de integrar a cúpula armada da Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella.

Morreu em 17 de março, surrado até perder o fôlego e os sentidos, sangrando profusamente no chão, relataram sobreviventes que com ele dividiram os porões do DOI-Codi, e por isso a Justiça e a União reconheceram o crime e mandaram indenizar a família.

A reparação veio em dinheiro, muito depois, em 1997 (governo Fernando Henrique Cardoso), mas os Vannucchi até hoje não receberam explicação para o encarceramento e a morte do filho.

José de Oliveira Leme, de 86 anos, e Egle Maria Vannucchi Leme, 82, pais de Alexandre, são professores aposentados. Ele tinha 51 anos e ela 47 quando perderam o filho e a paz.

Ainda o chamam de Lê e moram na mesma casa em que Alexandre e os cinco irmãos, mais novos, foram criados, à Rua Amazonas, Sorocaba, a 100 quilômetros de São Paulo.

É uma casa simples e antiga, mas espaçosa e agradável, construída quando a rua era de terra batida e a família tinha uma DKW Vemaguete à porta.

No quarto que foi de Lê, e também no sótão, seus pais preservam objetos, fotografias em preto e branco e outras lembranças dele — a cama e o guarda-roupas de um marrom escuro, o casaco de lã xadrez pendurado no cabide e protegido em plástico, a mesinha de canto envernizada onde fazia as lições, caixotes com pedras minerais que trazia de suas incursões à siderúrgica Ipanema, e o disco de Ravi Shankar, o músico indiano que admirava.

Em 1969, na Semana da Pátria do AI-5, ele tomou a decisão de estudar em São Paulo. Fez três meses do cursinho Equipe e passou em primeiro lugar no vestibular da Geologia, que começou a fazer ano seguinte. Míope, por isso os óculos de aro preto, era ávido leitor. "Lia compulsivamente, ele tinha um desejo maluco de aprender", conta o pai.

MINHOCA
Morou com o tio Luís Leme em um apartamento na Teodoro Sampaio, em Pinheiros, depois acomodou-se em uma república ali perto com outros quatro universitários que o chamavam de Minhoca — por gostar muito de mexer com terra e ser magrinho.

Vivia da mesada dos pais e de uns honorários como professor particular — em Sorocaba, onde nasceu, fez o curso normal, que o habilitou para o magistério.

Jamais participou à família, nem mesmo aos amigos mais próximos, sobre o engajamento na luta armada que os militares imputaram a ele e por isso o rotularam de subversivo, quadro de alto escalão do braço estudantil da ALN.

A cada duas semanas visitava a casa de Sorocaba, que era para ele um retiro, e ali nunca disse nada sobre a vida clandestina, nem nunca lhe perguntaram, até porque os pais o tinham na conta do estudante aplicado porque tinha sido assim desde sempre.

Chegava sábado, ia no domingo. Gostava de pingue-pongue, que jogava em uma mesa tosca no piso inferior da casa. "Era o ambiente do Lê", lembra o pai.

Nas tardes de bom tempo, descia duas quadras com os colegas da Vila Santa Terezinha e no campinho sem grama batia bola até o sol se pôr.

O futebol era uma paixão sua, o Corinthians o time do coração. Aquele campinho hoje é a Praça Alexandre Vannucchi Leme, de quatro árvores pequenas e uma placa de bronze em sua homenagem.

AVISO
Então, naquela segunda-feira, 19 de março, às 10h30, o telefone tocou. José Augusto, irmão mais novo, ouviu o recado de alguém que não disse quem era e avisou sobre a prisão de Alexandre, que já estava morto havia dois dias.

A família foi averiguar. O pai de Alexandre não dirigia na estrada, por isso tomou um ônibus da Viação Cometa até São Paulo e deu início a uma sofrida jornada nos endereços da repressão.

Foi ao Dops e ao DOI-Codi, o Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna do Exército. Negaram a ele que o rapaz estivesse por lá.

Na quinta à noite, 22, o pai retornou a Sorocaba sem uma única informação sobre o filho.

Planejava retomar as buscas no dia seguinte. Egle até preparou a mala com alguns pertences para o filho, a escova de dentes, uma muda de roupa, o pijama. "A gente tinha esperança de encontrar o menino com vida em alguma prisão", ela relembra, agarrada a uma grande gravura — o rosto do filho desenhado em crayon pelo engenheiro e amigo Mário Mattos.

Na agência da Cometa havia uma banca de jornais e revistas. Antes do embarque, manhã de 23, José leu a notícia. "Alexandre Vannucchi Leme, estudante, preso dia 16 por ser membro ativo da ALN, ao ser levado para um encontro com outro subversivo tentou fugir e foi atropelado."

O pai do jovem Alexandre voltou ao Dops, aquela construção centenária de tijolos vermelhos no bairro da Luz.

No segundo andar, em uma sala de janelões altos e de fundos, recebeu-o o homem encorpado, de olhos verdes e mal encarado, que a história colocou no banco dos réus como o senhor dos porões. Era o delegado Sérgio Fernandes Paranhos Fleury, mas o pai aflito não se intimidou.

"Por que vocês mataram o meu filho?", questionou.

"Aqui matamos bandido, não temos nada com esse caso do seu filho", respondeu Fleury, segundo o relato de José.

"Não acredito em nada do que o senhor está falando", retrucou o professor, que partiu para uma segunda busca, a do cadáver do filho.

Alexandre jazia em cova rasa do Cemitério de Perus, destino dos indigentes e dos sem-identidade. O jovem não era indigente e tinha identidade, mas os militares depositaram seu corpo ali, enrolado em saco preto emborrachado.

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