Brasil - Filosofia e Educação: novas perspectivas

20.08.07

Claudemiro Godoy do Nascimento

A prática pedagógica está articulada com uma determinada pedagogia que nada mais é do que uma concepção filosófica da educação. Tal concepção ordena os elementos que direcionam a prática educacional. Devemos compreender que o termo "filosofia" é vigente e muito utilizado. Na história do pensamento, à qual a humanidade vem construindo ao longo dos tempos, muitos foram os pensadores e pesquisadores que deram uma definição ou um conceito para entendermos o significado de Filosofia. Dentre as definições existem àquelas que menosprezam a reflexão filosófica. A expressão mais cabal desse descrédito está numa frase, mais ou menos popularizada pelas correntes elitistas e que anda de boca em boca, a saber: "(…) a filosofia é uma ciência com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual", ou seja, a lógica é que podemos muito bem passar com ou sem filosofia. Foi nesta direção que as políticas pós-golpe militar de 1964 se manifestaram ao deixar a filosofia excluída do ensino público brasileiro.

Podemos dizer que a Filosofia é um corpo de conhecimentos, constituído a partir de um esforço que o ser humano vem fazendo de compreender o seu mundo e dar-lhe um sentido, um significado compreensivo. Quando lemos um texto de Filosofia, nos apropriamos do entendimento que o seu autor teve do mundo que o cercava, especialmente dos valores que dão sentidos a este mundo. Valores esses que, por vezes, são aspirações que deverão ser buscadas e realizadas, se possível. Ninguém vive o dia-a-dia sem um sentido; tudo possui um sentido, seja para as relações de trabalho, para a sua relação com outras pessoas, sentido para as relações amorosas, para a amizade, para a ciência, para a educação e para com a política.

Neste sentido, a filosofia se manifesta ao ser humano como uma forma de entendimento que tanto propicia a compreensão da sua existência, em termos de significado, como lhe oferece um direcionamento para sua ação no mundo, um rumo para seguir ou, ao menos, lutar por ele. Certamente, devido ao fato de que a vida só tem sentido se vivida em função de valores dignos que a filosofia constrói uma forma de podermos refletir melhor sobre tais valores que se apresentam no mundo e em nosso meio. Desse modo, a filosofia é um corpo de entendimentos que compreende e direciona a existência humana em suas mais variadas dimensões.

Filosofia pode também ser considerada como a expressão de uma forma coerente de interpretar o mundo que possibilita um modo de agir também coerente, conseqüente e efetivo. Agir significa transformar o mundo no qual vivemos. Segundo Leôncio Basbaum "a filosofia não é, de modo algum, uma simples abstração independente da vida. Ela é, ao contrário, a própria manifestação da vida humana e a sua mais alta expressão (…) a filosofia traduz o sentir, o pensar e o agir do homem". Independentemente de ser escolarizado ou não, alfabetizados ou analfabetos, todos possuem uma forma de compreender o mundo. Esta é uma necessidade natural do ser humano, pois ninguém pode agir no escuro, sem saber para onde vai e porque vai. Só se pode agir a partir de um esclarecimento do mundo e da realidade.

Diante disso, podemos afirmar que a filosofia nos envolve e não temos como fugir dela. Ela é como o ar que respiramos, está permanentemente presente em nossas vidas. Por isso, como já afirmou o filósofo Cipriano Carlos Luckesi, "se não escolhermos qual é a nossa filosofia de vida, qual é o sentido que vamos dar à nossa existência, a sociedade na qual vivemos nos dará, nos imporá a sua filosofia. Quem não pensa é pensado por outros". Na história da humanidade, muitos foram pensados pela sociedade. Entenda-se aqui sociedade por poder dominante. A classe dominante continua buscando pensar os outros. E tem vencido a batalha. Muitos e muitas se encontram literalmente condicionados pelo pensamento dominante ou pela acomodação social, política, econômica. O pensar o outro significa desde doutrinar, catequizar ou domesticar o ser humano para a aceitabilidade do Estado Capitalista, como também, oferecer-lhe o mínimo de condições materiais para sua subsistência, entre as quais, destaco determinadas políticas públicas compensatórias de governos que chamam de cidadania a entrega de cestas básicas ou de leites para as pessoas excluídas da sociedade. Na verdade, o governo representa neste ato a lógica do poder dominante que perpetua as pessoas a permanecerem na condição de subjugados na marginalidade (o significado real de marginalidade não é o mesmo dado pela mídia, em especial, a Rede Globo. Trata-se de estar à margem da sociedade, à margem dos direitos, à margem da vida). Neste sentido, poderíamos dizer que o Brasil, a América Latina e a África possuem bolsões de marginais que estão desprovidos de direitos que lhes pertencem. Mas por quê? Porque na essência são pensados pelos outros. Assim como os povos indígenas foram pensados pelos portugueses e pela Igreja. Assim como os escravos foram pensados pelos senhores do engenho. Assim como nossa juventude foi pensada pela Ditadura Militar. Assim como continuamos a ser pensados pela elite burguesa que não se conforma em ver um filho da miséria no governo. Se bem que em determinados momentos o filho da miséria continue a pensar para beneficiar a elite que o detesta. Prova disso é o recente movimento denominado "Cansei" que nasceu a partir do empresário João Dória Jr. que pertence à elite brasileira descontente com os rumos da política e da economia.

Portanto, não há como negar a filosofia sem fazer filosofia, porque para se negar o valor da filosofia dentro do mundo é preciso ter uma concepção do mundo que sustente tal negação. Para iniciar o exercício de filosofar, é preciso admitir que vivemos e vivenciamos valores e que se torna urgente saber quais são eles. O primeiro passo do filosofar, não querendo tornar esta reflexão um manual de como filosofarmos, é inventariar os valores que explicam e orientam nossa vida e a vida da sociedade e que dimensionam os valores da prática humana. É preciso, pois, tomar consciência das ações, do lugar onde se está e da direção que a vida anda tomando na realidade na qual vivo. Direção que nasce tanto da consciência popular como da sedimentação do pensamento filosófico e político que se formulou e se divulgou na sociedade com o passar do tempo. A crítica é um modo de penetrar dentro desses valores buscando descobrir sua essência e sua existência enquanto tal. Trata-se de uma forma de colocá-los em xeque e desvendar-lhes os segredos, os mistérios ou aquilo que o poder dominante não quer que saibamos.

Em síntese, são três passos, a saber: inventariar os valores vigentes na sociedade, no mundo, na cultura; criticá-los à luz de uma profunda argumentação filosófica e de entendimento de mundo; e, por fim, reconstruí-los numa perspectiva que possa dar mais luz, vida e direitos àqueles e àquelas que se encontram a margem da sociedade. É um processo dialético que passa de uma determinada posição para a sua superação teórico-prática. Para que isto ocorra, torna-se necessário não somente olharmos o cotidiano, mas lê-lo e estudar o que disseram os outros pensadores, os outros filósofos.

Mas qual é a relação entre filosofia e educação nesta reflexão? A educação dentro de uma determinada sociedade não se manifesta como um fim em si mesma, mas sim como um instrumento de manutenção ou de transformação social. Ela necessita de pressupostos, de conceitos que fundamentem e orientem os seus caminhos. A sociedade dentro da qual a educação se encontra deve possuir alguns valores norteadores de sua prática.

As relações entre educação e filosofia parecem ser quase naturais. Enquanto a educação trabalha com o desenvolvimento dos jovens e das novas gerações de uma determinada sociedade, a filosofia é a reflexão crítica sobre o que e como devem ser ou desenvolver estes jovens e esta sociedade. Pelo que sabemos, os pré-socráticos dedicavam-se a entender a origem, o princípio (arché) de todas as coisas, do cosmos e criaram uma compreensão para a educação moral e espiritual dos homens. Os sofistas, por sua vez foram os primeiros a educar. Foram, inclusive, no Ocidente os primeiros a receberem pagamento para ensinar. Sócrates, grande opositor dos sofistas, foi o homem que morreu em função do seu ideal de educar os jovens e por estabelecer uma moral que questionasse a sociedade ateniense. Platão foi o filósofo que pretendeu dar aos filósofos o posto de rei, a fim de que estes tivessem a possibilidade de imprimir na juventude as idéias do bem, da justiça, do amor e da honestidade. Enfim, outros como Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Descartes, Rousseau, Hobbes, Kant, Hegel, Marx e Engels, Mounier, Gramsci, Habermas, entre tantos outros, continuam contribuindo para a construção do conhecimento e para fazer de nossas sociedades, uma sociedade de homens livres.

Neste sentido, filosofia e educação são dois fenômenos que estão presentes em todas as sociedades humanas e grupos. Um como as interpretações teóricas das aspirações, desejos e anseios de determinados grupos humanos, a outra como instrumento de veiculação dessa interpretação. A filosofia fornece à educação uma reflexão sobre a sociedade na qual está situada, sobre o educando, o educador e para onde esses elementos podem caminhar. Portanto, não há como se processar uma ação pedagógica sem uma correspondente reflexão filosófica. Se a ação pedagógica não se processar a partir de conceitos e de valores explícitos e conscientes, ela se processará, queiramos ou não, baseada em conceitos e valores que a sociedade impõe a partir de sua postura cultural.

Assim, a reflexa filosófica sobre a educação é que dá o tom à pedagogia, garantindo-lhe a compreensão dos valores que deverão orientá-lo para o futuro. A pedagogia de Montessori, a pedagogia piagetiana, a pedagogia libertadora de Paulo Freire e todas as outras se sustentam em um determinado pensamento filosófico sobre a educação. O estudo e a reflexão deverão obrigá-los a aparecer, mesmo que somente a partir da tomada de consciência desses pressupostos é que se pode optar por escolher uma ou outra pedagogia para nortear nossa prática educacional.

Claudemiro Godoy do Nascimento
Filósofo e Teólogo. Mestre em Educação pela Unicamp.
Doutorando em Educação pela UnB.
Pesquisador do Centro Transdisciplinar de Educação do Campo e Desenvolvimento Rural - CETEC/UnB.
E-mail: moc.liamg|sangualc#moc.liamg|sangualc

[Fonte: Adital]

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