Greve na FFLCH/USP

Artigo sobre o movimento de greve dos alunos da FFLCH-USp em 2002.
FFLCH — SDI — Assessoria de Comunicação, 29 de agosto de 2002

Prof. Dr. Franklin Leopoldo e Silva1

Que a greve dos estudantes da FFLCH encerrada há pouco tenha suscitado reações as mais diversas da parte de alunos, professores e funcionários é algo normal e esperado, uma vez que sabemos serem muito diferenciadas as posições perante esse tipo de movimento na comunidade universitária. Entretanto, o desenvolvimento da greve parece ter gerado um outro tipo de diferença que talvez não possa ser explicado a partir dos parâmetros de discordância democrática. Tal fenômeno, que descreverei apenas em termos impressionistas à falta de maior competência analítica, expressou-se, no meu entender, de duas maneiras.

Primeiramente, a partir de um certo momento, tinha-se a impressão de que a greve escapava da alçada da ação política da maioria daqueles mesmos que a efetuavam, como se a dinâmica do movimento houvesse cortado os laços entre os sujeitos políticos, a ação e os resultados dessa atividade. Isso ocorreu numa fase do movimento em que a continuidade da greve deixou de ser tema de discussões acerca de estratégia para tomar-se algo como uma obsessão, trazendo, como conseqüência, o enfraquecimento da discussão política pela dificuldade do confronto de opiniões quanto aos rumos do movimento.

Em segundo lugar, devido a esse prolongamento que acabou por conferir à greve, na sua fase mais adiantada, um certo caráter de extemporaneidade, difundiu-se na comunidade, e mesmo entre aqueles que no princípio consideravam o movimento legítimo e justificado, a idéia de que a greve estaria ganhando um perfil artificioso e cada vez menos compatível com a preservação institucional. Daí o paradoxo: um movimento necessário, altamente mobilizador e em grande parte vitorioso, aparecia também como progressivamente destituído dos objetivos que o haviam a princípio inspirado. E isso não pode ser atribuído apenas à radical idade, pois há ocasiões em que a defesa da instituição exige posições radicais. O que ocorreu foi que as expressões concretas de radicalidade indicavam uma desvinculação entre os meios e os fins, isto é, elas não pareciam já orientadas pela defesa da instituição.

A percepção desse distanciamento entre a greve como meio e a FFLCH como fim teve impacto decisivo na unidade a princípio esboçada entre alunos e professores, unidade que, se nunca chegou a se consolidar, teve ao menos efeitos parciais positivos na trajetória do movimento. É importante refletir sobre as razões dessa desarticulação, para corrigir a idéia de que uma parte da comunidade teria trabalhado pela derrota do movimento e assim cometido traição. Parece que não pode haver dúvidas de que o alto nível de mobilização conseguido desde o início está relacionado com as motivações concretas do movimento. A situação realmente vivida pelos alunos, principalmente no caso de Letras, testemunha o sucateamento da universidade pública de modo mais claro do que qualquer análise. A greve surgiu num momento em que a Faculdade não pôde mais deixar de mostrar, de forma escancarada, o caráter destrutivo do projeto que orienta a política de ensino superior. O que nunca foi novidade, mas que era mantido parcialmente camuflado, manifestou-se definitivamente como insuportável. Em torno dessa realidade crítica deu-se a mobilização e a união da comunidade como reação de defesa diante de um processo de degradação institucional com fortes indícios de irreversibilidade.

E a articulação que sustentou o movimento, que expôs publicamente o desinteresse das autoridades universitárias pelas Humanidades, que demonstrou a indigência intelectual e a cumplicidade política aí envolvidas, teria naturalmente de ser abalada quando se constatou que a instituição a ser defendida não era mais visada como finalidade do movimento, mas como pretexto ou instrumento para a eventual consecução, ou pelo menos para a afirmação, de objetivos programáticos concebidos num horizonte muito além dos propósitos de defesa institucional da universidade. Isso não significa que se deva separar por princípio a universidade, suas dificuldades e suas possibilidades, das questões concernentes à sociedade. Exatamente para que a universidade possa fazer sua parte no que se refere à crítica dos problemas sociais gerados pela política de subserviência ao capital internacional, há tantos anos vigente no país, é preciso que ela seja preservada na sua função crítica e formadora. Como a FFLCH é a única instância da USP em que tais questões ainda podem ser discutidas, mesmo que com as limitações e as dificuldades que conhecemos, levar o risco de diluição institucional e de desagregação acadêmica até o limite, invocando propósitos mais gerais de transformação histórica, além de não conduzir a uma aproximação maior e mais concreta entre a universidade e a sociedade, equivaleria a algo muito próximo de um suicídio político: o silenciamento da única instância institucional em que ainda existe a possibilidade de pelo menos questionar os rumos escabrosos que os govemantes — atuais e futuros — escolheram para conduzir o país. Nesse sentido se pode dizer que a radicalização expressou também uma certa insensibilidade política ao papel que a Faculdade só pode desempenhar num regime de integridade institucional.

No capítulo da desagregação institucional não é possível deixar de mencionar os espetáculos de repressão e barbárie que aconteceram nessa Faculdade. O voluntarismo exacerbado é explicação insuficiente para exibições de força e desrespeito notoriamente vinculadas a comportamentos autoritários e totalitários inaceitáveis numa comunidade que se pretende democrática. Apesar da justa indignação suscitada por tais atitudes, seria igualmente deletéria qualquer reação pautada em parâmetros semelhantes, mesmo invocando-se a responsabilidade acadêmica e institucional. Nesses casos, o exercício da tolerância, mesmo que se configure como partilha injusta do ônus da democracia, é a única atitude sensata, e foi, felizmente, a que prevaleceu.

Mas devemos a nós mesmos um exame aprofundado desses episódios. Eles apontam para a mais grave das conseqüências da despolitização: a impossibilidade da convivência democrática. Se isso for verdadeiro, significa que introjetamos o totalitarismo que, sob o viés tecnoburocrático e a aparência da democracia formal, tem caracterizado o exercício do poder no país e na universidade desde a dita "redemocratização". Como se pode contestar o totalitarismo e o autoritarismo valendo-se de práticas do mesmo gênero? A contradição é tão óbvia que o fenômeno somente pode ser explicado pela absoluta impossibilidade de discemir entre democracia e totalitarismo. Se tivermos que chegar a essa triste conclusão teremos que admitir também que o projeto político de despolitização, que com tanto empenho tem sido implementado no país desde a Nova República, obteve pleno êxito quanto à finalidade de obliterar o pensamento político, mesmo nas pessoas que crêem agir politicamente. Como uma instituição pública somente sobrevive alimentada pelo teor político de sua inserção na realidade, haveremos de convir também que a FFLCH não poderá sobreviver à sua própria descaracterização política.

Pode parecer pessimismo conduzir por esses caminhos a reflexão sobre uma greve que, afinal, obteve inegáveis resultados, expressos no número de novos docentes que poderão ser admitidos proximamente, o que por certo contribuirá para a melhoria das condições de ensino. É preciso reiterar esse aspecto positivo, até porque os estudantes assumiram uma tarefa que caberia mais propriamente, e desde há muito tempo, aos professores que, de um modo ou de outro, acomodaram-se a uma situação cada vez mais precária. Não significa portanto diluir responsabilidades afirmar que, diante desses graves problemas e inclusive daqueles que a própria greve revelou, um eventual fortalecimento institucional da FFLCH, a possibilidade de sua rearticulação política e o aprimoramento acadêmico exigiriam muito mais do que as providências que visam atender ao seu crescimento presente. Pode a FFLCH atravessar as dificuldades atuais de modo que venha a assegurar, no futuro, a preservação de sua identidade e a fidelidade às suas tradições? As considerações muito preliminares aqui desenvolvidas acerca de acontecimentos que demandam discussões bem mais amplas e fundamentadas servem apenas ao objetivo de iniciar um processo de reflexão necessário.

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