O navio-prisão

Texto da jornalista Lídia Maria de Melo, publicado no jornal santista A Tribuna em 2 de novembro de 2003.

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Thomas Maack que acabou se exilando nos Estados Unidos
Foto: reprodução/1965 — publicada com a matéria

Thomas Maack, médico e preso do Raul Soares

De Nova Iorque, após 39 anos, pesquisador relata fatos vividos no navio-presídio

Lídia Maria de Melo
Editora Local


Santos, 1964. Com revólver em punho, um oficial da Marinha pára diante da cela. Há uma emergência noturna no navio Raul Soares. Um prisioneiro acaba de cortar os pulsos, para tentar se matar. O jovem médico de cabelo vermelho e nome alemão é levado para prestar os primeiros-socorros.

Depois de constatar que o corte é superficial, faz a sutura e aconselha a remoção do ferido para a Santa Casa. A partir daquela noite, quando os presos adoeciam, eram tratados por ele, Thomas Maack, um prisioneiro também.

Nos relatos que depois surgiram sobre a embarcação que serviu de presídio político no porto, de abril a outubro daquele ano, o médico era sempre mencionado. Ninguém, porém, sabia precisar o seu paradeiro. Assim, ele se tornou apenas um nome, uma lembrança para alguns poucos.

Hoje, faz exatamente 39 anos que o Raul Soares foi rebocado das cercanias da Ilha Barnabé para virar sucata no Rio de Janeiro.

No próximo mês, completará a mesma quantidade de tempo que Thomas Maack deixou o Brasil, aos 29 anos, com a mulher, a professora Isa Tavares Maack, e a filha Marisa, de 18 meses. Se ficasse, voltaria a ser preso pelos militares que comandavam o País desde 31 de março daquele mesmo ano de 1964.

Por coincidência (que não sera a única em sua vida), foi com idade idêntica que seu pai, Hans Maack, saiu de Insterburg, na Alemanha, com destino ao Brasil, no início de 1936, para proteger a família do nazismo. A mãe, Kate Maack, era de origem judia e Thomas tinha poucos meses de nascido.

Em agosto último, consigo localizar Thomas Maack nos Estados Unidos. Depois de tomar conhecimento de que meu pai, Iradil Santos Mello, também esteve no navio-presídio, aceita de pronto conceder entrevista, com exclusividade. Numa longa conversa, por e-mail, durante mais de dois meses, ele conta os motivos de sua prisão, sobre o período de isolamento no Raul Soares, a fuga do Brasil e as dificuldades de adaptação em um país para onde a vida o levou.

"Algumas lembranças são duras, mas, em geral, lembrar é quase uma catarse para mim", sintetiza o médico, que se tornou pesquisador de renome internacional e professor titular de Fisiologia da Weill Cornell Medical College (Escola Médica da Universidade de Cornell), da cidade de Nova Iorque.

Exílio — Quando decidiu ir embora, em dezembro de 1964, após ser libertado, achou que logo voltaria. O regime militar, no entanto, durou 25 anos e ele foi expulso do País por decreto do Governo, perdendo o direito de se naturalizar brasileiro.

Após a assinatura da Lei da Anistia, em 1979, retornou. Mas a família, já acrescida de mais uma filha, Márcia, não se adaptou. "Essa é uma história importante de exílio", analisa. "Não se fica fora do País por 15 anos, para depois voltar como se nada tivesse acontecido". O regresso para os Estados Unidos foi inevitável. Em 1982, Thomas Maack naturalizou-se norte-americano.

Mesmo vivendo em Nova Iorque há quase quatro décadas, o cientista de 68 anos, completados em 17 de julho, ainda torce para o Corinthians e tem o coração fincado em São Paulo: "Continuo a me considerar um paulistano típico". Esse sentimento se explica, a seu ver, porque foi na capital paulista que ele passou a infância, a juventude e o início da fase adulta.

Ao Brasil, costuma vir para compromissos profissionais e, ocasionalmente, em férias. À Baixada Santista, nunca mais voltou. Mas daqui ele guarda recordações melhores do que as dos meses em que esteve preso no navio e na cadeia do Palácio da Polícia, na Rua São Francisco, no Centro.

"Conheço Santos e a Baixada desde criança, quando eu ia passar as férias com meus pais. Lembro da Praia do Gonzaga, em Santos; de Itanhaém, onde eu ia namorar a Isa; de Bertioga, onde passamos a lua-de-mel e choveu o tempo todo, e de Guarujá. Nunca associei minha prisão, no Raul Soares e na cadeia, com Santos".

Prisão ocorreu na Faculdade de Medicina da USP

Thomas Maack foi preso na manhã de 8 de junho de 1964, uma segunda-feira, por agentes do Departamento da Ordem Pública e Social (Dops) e militares à paisana.

Estava em seu laboratório, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), onde se formara em 1961 e depois se tornara auxiliar de ensino no Departamento de Fisiologia.

Era acusado de subversão e de planejar a implantação do regime comunista no País, por ter participado dos movimentos estudantil e trotskista. "Os militares sabiam que eu tinha um conhecimento grande das atividades, inclusive de nomes de militantes". Ele ressalta, porém, que já havia rompido com o trotskismo quando foi preso. Mesmo assim, a seu ver, essa ex-militância foi o motivo principal de sua prolongada prisão.

Também pesou o fato de ter se oposto ao golpe militar dentro da FMUSP, já como professor. Acabou delatado por outros docentes e funcionários da faculdade.

Na tarde do mesmo dia 8, seu apartamento foi invadido. Levaram livros e papéis, desatarraxaram lâmpadas, esvaziaram gavetas e armários. Buscavam provas para as acusações que lhe imputavam. "Como fui absolvido pela Justiça Militar nos dois processos em que figurava, essas acusações deviam ser patentemente falsas".

Algumas eram mesmo grotescas. "Disseram que encontraram uma bala de arma do Exército no nosso apartamento. Nunca peguei uma arma ou bala de espécie alguma em minha mão. Disseram que tinham uma fotografia minha, vestido de sargento no Nordeste, fomentando a revolução comunista. Nunca tinha ido ao Nordeste brasileiro".

Da USP, foi levado para a sede do Dops. E, após algumas horas, para o Quartel do Exército de Quitaúna, em Osasco, onde ficou por cerca de três semanas. Era submetido a extensos interrogatórios comandados pelo tenente-coronel Sebastião Alvim, que mandou invadir também seu laboratório na FMUSP.

Nessa ação, os militares pegaram seus livros de protocolo, onde estavam anotadas as experiências que realizou de 1962 a 1964. "Os livros de protocolo são o que há de mais precioso para um pesquisador". Mas eles achavam que as anotações escondiam códigos secretos de atos subversivos e nomes de guerra de outros militantes.

O cientista, que já é avô de Marcelo e Lucas, cita outro exemplo de avaliação equivocada de seus atos. Em uma das sessões de interrogatório, o coronel alertou-o sobre o caráter comprometedor da cesta vermelha em que ele carregava Marisa, ainda bebê, de casa para a creche do Hospital das Clínicas (HC), que era, e ainda é, vinculado à FMUSP.

Na visão do militar, que morreu em janeiro de 1998, e de alguns delatores da FMUSP, a cor era uma prova irrefutável de sua ideologia comunista. Thomas Maack rebateu com humor a interpretação. Alegou que seu cabelo ruivo, quase da tonalidade de um tomate, já seria suficiente para simbolizar suas idéias. Ainda assim, a cor da cesta figurou em um de seus processos na Justiça Militar como indicativo de sua culpa.

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Os presos que adoeciam eram atendidos por Thomas Maack
Foto: reprodução — 16/9/1964 — publicada com a matéria

Quatro meses de confinamento

No final de junho de 1964, Thomas Maack foi trazido para Santos e confinado no Raul Soares, sem que a família soubesse. Ele estima que no navio, supervisionado pela Marinha, houvesse cerca de 150 presos políticos. A maioria era do movimento sindical santista e de outras regiões do Estado. Havia ainda militares, jornalistas, estudantes e lideranças de várias áreas.

O cientista se lembra de poucos nomes. Sabe que muitos adoeciam e deveriam ser acompanhados por um médico da Marinha, que quase não aparecia. Quando passou a assistir esses doentes, apontava aos oficiais a necessidade da transferência para a Santa Casa, se havia gravidade. "Eles sempre acatavam, porque temiam que houvesse morte entre os prisioneiros e uma rebelião".

O estudante Tomoshi Sumida era um dos que estavam com a saúde fragilizada. "Constantemente, ele era encarcerado nos chamados quarto quente e quarto frio. Mandei avisá-lo de que deveria ser visto por um médico, no caso, eu, que daria um jeito de dizer que sua saúde não suportaria aquele tipo de exposição. Mas Sumida era corajoso e resolveu mostrar aos militares que as punições não o iriam quebrar. Não era a melhor decisão, mas eu respeitava".

Após a leitura de meu livro, Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós, que pediu a um amigo para comprar no Brasil, o pesquisador relata: "A narativa de seu pai evocou muitas memórias. A descrição sobre o caso do Zeca da Marinha me fez relembrar com clareza um episódio".

No final de uma tarde, um integrante da Polícia Marítima e um oficial da Marinha levaram à sua cela um prisioneiro com alto grau de agitação e incoerência mental. O oficial achava que o homem estava fingindo ser louco. Thomas Maack garante que nada havia de encenação no comportamento do preso.

"A agitação era incontrolável e poderia se transformar em violência. Quando estava tentando dizer isso ao oficial, o prisioneiro tirou a sua aliança do dedo e a engoliu".

O oficial e o policial ficaram impressionados e se retiraram, deixando o prisioneiro na cela por cerca de duas horas. Ele acredita que esse preso era Zeca da Marinha. "Ele não falava. Às vezes, andava de um lado para o outro. Outras, sentava com as mãos na cabeça. Depois, foram buscá-lo e o liberaram não sei para onde".

Tratar dos doentes era a única maneira de Thomas Maack ter contato com outros presos. Ele ocupava uma cela individual que o mantinha isolado, ao contrário do que ocorria com a grande maioria que estava alojada em péssimas condições no porão.

"O meu isolamento não me permitiu conhecer os trabalhadores da orla marítima, de saber de suas angústias, de seus castigos, de seus desesperos, mas também de seu companheirismo".

Mesmo assim, conseguiu que a liderança dos sindicalistas desse um jeito para que um policial transmitisse um recado seu a Isa na Capital. "Aproveitei que alguns tinham boas relações com policiais marítimos".

Após mais de três meses no navio, ele recebeu a primeira visita. Foi a de sua mãe, que levou Marisa. Isa só obteve autorização quando faltavam poucas semanas para a desativação do presídio flutuante. Na primeira vez, ela foi sozinha. Na segunda, estava com a filha.

Em outubro de 1964, o governador Adhemar de Barros expurgou Thomas Maack da FMUSP. Depois, a direção da creche do HC expulsou Marisa, já que o pai não era mais professor da universidade. O castigo ao bebê foi revogado após protestos e repercussão na imprensa.

Em tempo: os ex-presos políticos Zeca da Marinha, Tomoshi Sumida e Iradil Santos Mello já são falecidos.

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O cientista Thomas Maack é professor titular de Fisiologia e Medicina
Foto: Andrew Suhl/especial para A Tribuna, publicada com a matéria

Exílio foi a única alternativa para evitar perseguições

O Raul Soares foi desativado no dia 23 de outubro de 1964. Nessa data, a maioria dos presos foi libertada e processada, além de ter os direitos políticos cassados por dez anos. Junto com alguns prisioneiros militares, Thomas Maack foi transferido para a cadeia do Palácio da Polícia, de onde só saiu no dia 15 de dezembro por força de um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal.

Três dias depois, nova prisão preventiva foi decretada. Dessa vez, ninguém mais conseguiu prendê-lo. Com o auxílio de pessoas que ajudavam perseguidos políticos, conseguiu um passaporte alemão e foi até Curitiba com a mulher e a filha.

De lá, os três viajaram de avião para Assunção, no Paraguai. A intenção era seguir para o Canadá, mas não havia vôos diretos. Seria preciso um visto norte-americano. Permaneceram uma semana na capital paraguaia antes de partir para Nova Iorque.

Nos Estados Unidos, ficaram com familiares em Siracusa. Amigos desaconselharam a ida para o Canadá. Ele, então, falando um inglês que mal dava para ser entendido, foi conhecer o Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina da cidade.

Por outra grande coincidência, encontrou o renomado fisiologista renal William Kinter, que havia conhecido durante um congresso na Argentina, em 1959. "Contei a Kinter minha história e ele imediatamente me ofereceu uma posição de pós-doutorado em seu laboratório. Assim, uma semana depois, havia conseguido um emprego. Logo, Isa foi aceita na pós-graduação de História. Ficar nos Estados Unidos não foi uma decisão racional. Foi aonde a vida nos levou".

A prática médica de Thomas Maack terminou no Raul Soares. Nunca mais atendeu a pacientes. Não por falta de vontade, mas porque sua carreira nos Estados Unidos o direcionou exclusivamente à pesquisa e ao ensino médico.

"A minha contribuição para o Brasil está na formação dos diversos brasileiros que foram treinados aqui nos Estadoos Unidos. A maioria desses meus estudantes brasileiros, hoje, ocupa posições de liderança profissional no País".

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Reportagem de A Tribuna de 17 de setembro de 1964 menciona o médico
Imagem publicada com a matéria

Saiba Mais

Thomas Maack lecionou na Faculdade de Medicina da USP, de 1962 a 1964, e na Universidade Estadual de Siracusa (NY/EUA) de 1965 a 1969. Nesse mesmo ano, foi contratado como professor pela Escola Médica da Universidade de Cornell (NY/EUA), onde mais tarde se tornou titular dos departamentos de Fisiologia e de Medicina. Também integrou a comissão que implantou o sistema de reserva de vagas para negros. Membro da Academia Brasileira de Ciências desde 14 de junho de 2000, dedica seu trabalho à pesquisa e à formação de médicos.

Nos últimos 20 anos, sua pesquisa vem sendo centrada em estudos pioneiros sobre um hormônio produzido pelo coração, chamado fator natriurético atrial, que regula a excreção de sal do organismo e a pressão arterial. Publicou mais de 100 artigos em revistas científicas, além de capítulos de livros. Desde 1979, é convidado para realizar atividades como professor visitante em universidades públicas brasileiras. Foi consultor da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão ligado ao Ministério da Educação (MEC), em 1999 e 2001. De 1998 a 2001, participou da reforma curricular em cursos de Medicina, como o da Universidade Estadual de Campinas.

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O navio, na época em que foi usado como prisão militar
Foto cedida à autora em 1986 pelo proprietário do Museu Naval de São Vicente, Carlos Hablitzel, e incluída no livro Raul Soares, um Navio Tatuado em Nós, publicado em 1995

Memória

O navio Raul Soares foi construído em 1900 pela empresa alemã Hamburg-Sud e batizado de Cap Verde. Tinha capacidade para 587 passageiros. Pesava 5.909 toneladas. Transportava imigrantes da Europa para a América do Sul. Em 1919, foi vendido para a Grã-Bretanha. Em 1922, teve o nome trocado para Madeira. Três anos depois, comprado pelo Lloyd Brasileiro, passou a ser chamado de Raul Soares, em homenagem ao político que governou Minas Gerais e dá nome a uma cidade mineira. Trouxe para Santos muitos migrantes do Norte e Nordeste do País.

Estava inativo no cais da Ilha de Mocanguê, no Rio de Janeiro, quando foi rebocado pela embarcação Tridente, da Marinha, até o Porto de Santos, onde chegou no dia 24 de abril de 1964. Na semana seguinte, começou a receber prisioneiros políticos, acusados de subversão, por se oporem ao Governo MIlitar que havia deposto o então presidente da República, João Goulart, no dia 31 de março. Depois de desativado como prisão flutuante no dia 23 de outubro, o Raul Soares foi levado de volta para o Rio, na manhã do dia 2 de novembro de 1964. Acabou virando sucata, mas será sempre lembrado como um símbolo da repressão em Santos.

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