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Manchete da TRIBUNA DA IMPRENSA de 16 de julho de 1967

Duzentos estudantes têm ordem de despejo

Os estudantes da Casa do Estudante do Brasil receberam, ontem, ordem de despejo, expedida pela 5ª Vara Cível, determinando que se retirem do prédio que lhes foi dado pela sra. Ana Amélia de Queirós Carneiro de Mendonça, presidente vitalícia daquela casa, em 1929.

O advogado dos despejados, sr. Plínio de Oliveira Neto, está apelando para a revogação da ordem, sendo que, por outro lado, os estudantes expulsos decidiram acampar amanhã em frente ao prédio da CEB, onde realizarão discursos e comícios, para que o público e as autoridades se apercebam de suas necessidades.

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Taqui pra ti/Ribamar Bessa -- Quinta 11/10/2007
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Na madrugada de um domingo, em julho de 1967, uma tropa de 1.500 policiais, apoiada por um helicóptero, cercou espalhafatosamente a Casa do Estudante do Brasil (CEB), no centro do Rio de Janeiro e invadiu o prédio, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Os moradores, cerca de 80 estudantes desarmados, depois de levarem muita porrada, foram desalojados e presos no quartel da Frei Caneca. Entre eles, dois amazonenses: Antônio Sanches, estudante de medicina (hoje, professor da Universidade do Amazonas) e este locutor que vos fala.

Nós dois morávamos no mesmo quarto. Cada vez que abríamos o guarda roupa, encontrávamos lá dentro, escondida, uma mulher nua. Protegida por uma cortina transparente, ela chamava um de nós, dobrando o dedo indicador em forma de anzol e fazendo um biquinho com seus lábios carnudos: "Sanches, queridinho, vem cá", era o que ela sempre dizia, na frase escrita em balão desenhado sobre sua cabeça. O poster da Playboy, já amarelecido, havia sido expropriado de uma banca de jornal. De tamanho natural, estava colado na parte interna da porta do guarda-roupa, que foi arrebentada pelo coice de um policial, durante a invasão. A patética imagem da nossa musa de papelão, estatelada no chão, coberta de cacos de espelho, deixou também em estilhaços os nossos sonhos solitários.

A polícia interrogou, fichou, fotografou e tirou a impressão digital de todo mundo. Dois dias depois nos soltou no meio da rua, proibindo-nos de retornar à Casa do Estudante, cujas portas permaneceram lacradas. A expulsão era definitiva. Não voltamos lá, nem para pegar nossos bregueços. Não pudemos sequer dar uma sepultura digna à mulher que tanto tempo manteve ocupada, entre outras coisas, a nossa imaginação.

Da prisão, levei comigo alguns gloriosos hematomas diretamente para a sede da ABI - Associação Brasileira de Imprensa, onde estava se realizando um encontro, com a presença de donos de jornais, editores e chefes de redação. O tema era imprensa e democracia. Na hora do debate, pedi a palavra. O discurso inflamado contou tudo tim-tim por tim-tim, só omitindo, é claro, a viuvez do Sanches. No final, o diretor da Asapress veio conversar. Explicou que a agência entrava numa nova fase e precisava de jornalistas jovens e aguerridos. Ofereceu-me o posto de repórter e um salário de 180 mil cruzeiros, uma fortuna para um estudante desempregado. "Se quiser, pode começar hoje", ele disse. Eu queria. Como eu queria!

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